Um nome para ser lembrado

Carlos Nunes desponta como renovador da cena visual com Modus Operandi, mostra com jeito de laboratório

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2013 | 02h20

Carlos Nunes é um artista ainda pouco conhecido do público paulistano. Compreensível. Ele passou alguns anos estudando em Londres, na conceituada Saint Martin School of Arts, por onde passaram Frank Auerbach, Victor Pasmore e Rebecca Horn, entre outros. Posteriormente, em 2005, mudou-se para Buenos Aires e só em 2008 voltou a viver em São Paulo, onde nasceu há 44 anos. Fez três individuais desde então, uma no MAC de Curitiba (2009), a segunda no Centro de Cultura Britânica (2010), que lhe garantiu um prêmio, e a mais recente, no Espaço Laika (2011). Egresso do Ateliê Fidalga, assim batizado por estar localizado na rua de mesmo nome, na Vila Madalena, Carlos Nunes faz parte, desde o começo do mês, do elenco da Galeria Raquel Arnaud, que ocupa até 3 de agosto com sua exposição Modus Operandi, dividindo o espaço com a veterana Maria-Carmen Perlingeiro (no segundo andar, com a mostra Luz e Pedra).

O trabalho da artista carioca tem íntima conexão com o de Sergio Camargo (1930-1990). Suas esculturas são marcadas pela influência do mestre, usando o mesmo mármore de onde saíram as peças do escultor, em Massa, Itália. Já a filiação de Carlos Nunes não é facilmente identificável. Há um procedimento que por vezes faz lembrar o meticuloso Waltercio Caldas, mas o parentesco não passa de um ligeira semelhança morfológica entre peças. Nunes, como sugere o título de sua exposição, está mais interessado no processo de realização do que propriamente na obra, por vezes efêmera, sobrevivendo apenas no registro filmado da ação, caso da série de 12 vídeos que registram o artista tentando colar ovos com parafina, para construir uma escultura como a coluna infinita de Brancusi, contra o precário equilíbrio do instável material.

Um observador menos atento talvez veja nesse procedimento ecos dadaístas, assim como numa outra obra da exposição, um conjunto de fotos com 175 combinações possíveis entre quatro objetos banais (entre eles uma lata e um desentupidor de pia). Entretanto, Nunes não é um neodadaísta ou um nouveau réaliste. Não subscreve manifestos. É o próprio manifesto. Todos os seus trabalhos exigem do artista dose infinita de paciência por estar seu "modus operandi" estreitamente vinculado ao esgotamento do material. Logo à entrada da galeria é possível ver, por exemplo, duas obras em que foram gastos bastões inteiros de pastel seco, um preto e outro amarelo. Curiosamente, do último emerge a figura de um retângulo, como a versão negativa da ordem geométrica do alemão Albers, que testou a interação cromática entre quadrados em sua mais conhecida série.

E, a exemplo de Tarkovski, ele tenta esculpir o tempo com as imagens de sua obra, caracterizada pelo espírito científico, controlando até os segundos de permanência de uma caneta hidrocor no centro do papel. O crítico napolitano Jacopo Crivelli Visconti, autor do livro que acompanha a exposição, diz mesmo que cada desenho ou escultura de Nunes pode ser equiparado a uma "experiência a ser verificada empiricamente, como um teorema". Por vezes, Nunes atribui a uma máquina a demonstração desse teorema, produzindo desenhos com a ajuda da vibração de alto-falantes. Os desenhos que surgem no papel resultam do som inaudível que sai desses alto-falantes - e há um bem curioso, executado há três anos com a trilha de Submarino Amarelo, dos Beatles.

A palavra "possibilidade" aparece invariavelmente ligada a essas obras. Cada escultura, cada desenho, é como uma obra aberta, à espera de que o espectador a reconstrua à sua maneira - e um bom exemplo é a figura geométrica feita com fita preta, usada em iluminação de shows, rigorosamente colada à parede principal da galeria, quase um afresco minimalista. E, vista por meio do registro fotográfico, a série Possibilidades Escultóricas de uma Natureza-Morta mais parece a obra de um Morandi enlouquecido, que, para pintar o mundo, usava garrafas como pretexto. Nunes faz esculturas efêmeras explorando o frágil equilíbrio de objetos sujeitos à gravidade. Tudo, afinal, se resume a um mundo em que o real não passa de uma imagem virtual.

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