Um Nobel no Metrô de Londres

Em 1996, vivia em Londres como correspondente e, claro, andava no metrô de cá pra lá, sempre correndo atrás de entrevistas, reportagens... Uma manhã estava de pé num trem lotado da linha Picadilly e, ao olhar para o lado, vi um rosto conhecido. Custei a acreditar, mas realmente parecia o famoso escritor peruano Mario Vargas Llosa.

Otávio Dias, editor do estadão.com.br

07 de outubro de 2010 | 20h30

 

Não costumo abordar pessoas conhecidas no meio da rua, mas naquela dia não me contive: “Sorry mr., are you Vargas Llosa?”, perguntei, num inglês meio capenga pela emoção do momento. “Yes, where are you from?”, respondeu o escritor. Disse que era brasileiro e que já o havia encontrado uma vez no Brasil em um almoço com jornalistas.

 

Perguntei se costumava andar bastante de metrô. “Sim, vou todos os dias de metrô à biblioteca do Museu Britânico, onde costumo escrever quando estou em Londres.” Chegamos então à estação de Holborn, perto do famoso museu. Não tinha de descer lá, mas pulei do trem para aproveitar um pouco mais a conversa. Trocamos um rápido adeus e lá se foi um de meus escritores preferidos.

 

Fiquei então ali, no meio de toda aquela gente desconhecida, lembrando de minha ligação pessoal com Vargas Llosa. Aos 16 anos encontrei perdido na fazenda de minha família um livro chamado “Tia Júlia e o Escrevinhador”. Comecei a ler sem saber do que se tratava e, durante dois dias, não pude desgrudar daquele romance que entrelaçava estórias de um jovem peruano cheio de paixão e ideais a fantásticas novelas de rádio.

 

Disparei a ler sua obra e, quatro anos depois, decidi ir atrás de seus passos numa viagem de 45 dias, com mochila nas costas, pelo Peru. Acompanhado de um amigo chamado Daniel _aliás, filho de outro importante escritor latino-americano, Ignácio de Loyola Brandão_ partimos de Bauru rumo a Corumbá e, de lá, pegamos o famoso trem da morte até Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, e seguimos por terra, de trem, ônibus, carona e até mesmo a pé, até Trujillo, no norte do país. Visitamos vários dos lugares descritos nas obras do escritor peruano, como Arequipa, sua cidade natal, Miraflores, bairro limenho bastante presente em seus livros, a universidade onde ele estudou...

 

Na época, Vargas Llosa era candidato à Presidência e estava na frente nas pesquisas. Parecia-me uma oportunidade incrível para o Peru ter como presidente um intelectual e escritor de seu nível. Cheguei a invejar os peruanos por aquela grande chance, enquanto nós, no Brasil, estávamos às voltas com Fernando Collor de Mello. Mas a torcida foi em vão: Vargas Llosa perdeu na última hora para um até então desconhecido Alberto Fujimori. Confesso que doeu...

 

Em Londres tive ainda mais uma oportunidade de encontrar Vargas Llosa. Os ingleses têm o hábito interessante, ainda pouco comum no Brasil, de ir ao teatro ouvir escritores lerem suas próprias obras. Um dia vi no jornal que Umberto Eco e seu colega peruano se reuniriam uma noite para ler seus novos romances em voz alta.

 

Imediatamente comprei o ingresso e, ao chegar lá, estranhei todo o esquema de segurança na porta. Logo entendi o motivo. Além dos ilustres romancistas italiano e peruano, teríamos também uma presença inesperada e “proibida”: Salman Rushdie. O escritor anglo-indiano vivia foragido, protegido 24 horas por dia pelo Scotland Yard por causa da fatwa proferida contra ele pelo aiatolá Khomeini anos antes, por ocasião do lançamento de “Os Versos Satânicos”.

 

Eco leu trechos de “O Pêndulo de Foucault”. Não entendo bem o italiano, mas o que me impressionou foi a torrente de palavras que saíam da boca do escritor. Depois, Vargas Llosa leu partes de “Lituma nos Andes”. E a jornada de literatura terminou com Rushdie e seu “O Último Suspiro do Mouro.” Três grandes escritores em uma só noite, uma glória!

 

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