Um museu para a animação

Festival Anima Mundi vai reunir seus 6 mil filmes em um local especial

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2010 | 00h00

   

 

Duelo de Cavalheiros. Animação canadense tem como novidade o combate entre dois monstros mecânicos: acervo variado

 

 

Mickey, Pateta, Scooby Doo, Tom e Jerry... Até 1993, o fã brasileiro de animações não conhecia o mundo que não fosse desenhado por Walt Disney ou Hanna-Barbera. Naquele ano, porém, surgiu o Anima Mundi, que logo se tornou o maior festival latino-americano da animação, criando um porto seguro para trabalhos experimentais e filmes rebuscados. Resultado: em pouco tempo, mestres antes desconhecidos, como o japonês Hayao Miyazaki, passaram até a animar conversas dos aficionados.

"Nesses 17 anos de festival, acumulamos experiência e um acervo muito bom de fitas, material de animação, cenários de filmes e livros vindos de diversos países", conta uma das organizadoras e fundadoras, Aída Queiroz. "São mais de 6 mil títulos no acervo, que deveriam estar disponíveis para pesquisadores e adoradores em geral."

As portas estarão abertas quando finalmente os curadores do Anima Mundi realizarem seu grande sonho: a construção de um museu que abrigue seu valioso material. O espaço deverá ser levantado no Rio de Janeiro - hoje, o material está guardado no bairro do Botafogo. Lá, estarão preservadas pequena joias como O Velho e o Mar, do russo Alexander Petrov, impressionante adaptação do romance homônimo de Ernest Hemingway. Ou curiosidades como o brasileiro Almas em Chamas, de Arnaldo Galvão, um conto erótico que narra uma tórrida relação entre um bombeiro e uma mulher, digamos, insaciável. O roteiro é de Flávio de Souza, com a atriz Marisa Orth dublando a personagem.

"Nosso primeiro passo será o de convidar um museólogo para organizar o acervo e aconselhar sobre a formação dos espaços", conta Aída que, junto dos visionários Léa Zagury, César Coelho e Marcos Magalhães (diretor de Meow, o curta de animação que ganhou a Palma de Ouro da categoria em Cannes), conseguiu transformar o Anima Mundi em referência mundial na animação. Afinal, desde sua primeira edição, em 1993, o festival exibiu exatos 5.927 filmes até o ano passado (dos quais, 1.061produções nacionais), permitindo que o espectador brasileiro pudesse mapear as tendências mais importantes da animação em todo o mundo. Uma porção ínfima tornou-se disponível com os seis DVDs já lançados com o melhor da programação, mas há muito ainda que se oferecer.

Segundo Aída, o museu da animação (que será semelhante aos existentes em Tóquio e Seul) vai oferecer espaços variados, tanto para a visitação de escolas como de pesquisadores. "Nosso objetivo é contagiar um público bem amplo." O projeto já segue passos acertados: depois de formatado o projeto, que terá o auxílio do museólogo, um local será escolhido para a construção da obra ao mesmo tempo em que serão acertados acordos com mantenedores. "A animação hoje se adapta a tudo, seja digital, internet, HD, ou seja, não vai perder força mesmo com os avanços tecnológicos como os do Avatar", conta Aída Queiroz.

E, para provar que não condena os clássicos, o Anima Mundi continuará a exibir filmes de qualidade - em 2008, por exemplo, a plateia se divertiu com o Pateta. Afinal, a qualidade visual é o que impera.

O QUE É

ANIMA MUNDI

FESTIVAL DE ANIMAÇÃO

Surgiu em 1993, no Rio e em São Paulo, com a intenção de exibir o melhor da produção mundial de animação, além de criar e fomentar talentos nacionais. A partir de 2003, estendeu-se para outras capitais e cidades, atingindo mais 17 municípios. Também organiza filmes nacionais para exibição em outros países.

PRESTE ATENÇÃO

1. Feito com técnica de pintura sobre vidro, o belíssimo O Velho e o Mar, do russo Alexander Petrov, ganhou o merecido Oscar de melhor curta de animação de 2000.

2. Exibido no Anima Mundi do ano passado, French Roast (Café Expresso) mostra as agruras do homem que descobre ter perdido a carteira quando vai pagar a conta em um café.

3. Atama Yama (Monte Cabeça) foi criado por Koji Yamamura em 2002. Trata-se da história surreal de um homem avarento em cuja cabeça cresce uma cerejeira.

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