Um mundo levado no bolso

Os feitos de Edu da Gaita deviam garantir sua imortalidade. Mas não é bem assim

BOLÍVAR TORRES , ESPECIAL PAR AO ESTADO, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h08

Até sua morte, em 1982, Eduardo Nadruz, o Edu da Gaita, dedicou-se em levar seu instrumento onde nunca havia estado antes. Subestimada pela classe musical, a harmônica alcançou, graças ao músico gaúcho, um novo patamar no Brasil. Das noites ilustres no Cassino da Urca foi direto para o palco do Municipal, dividiu atenções com orquestras sinfônicas, ganhou concertos, rodou o mundo com uma façanha inédita - a execução das 2400 notas do Moto Perpetuo, de Paganini . O esforço e insistência de uma vida inteira seguem, contudo, caídos no esquecimento. Fora de catálogo, a obra de Edu - composta por mais de 20 álbuns - ainda mofa nos porões das gravadoras. A maior parte de seus discos nunca saiu em CD. Há anos, o herdeiro do músico, Eduardo Nadruz Filho, tenta, em vão, relançar algumas das principais faixas de sua carreira, restaurada pelos sistemas Sonic Solutions e Cedar.

"Com o que tenho, poderia tranquilamente lançar um álbum de pelo menos de 16 faixas", conta. "Está tudo pronto. Tentei contactar a Universal, detentora dos direito das músicas que restaurei, mas a gravadora não se interessa em relançar sua obra nem permite que outros a lance. Acabei desistindo. A obra do meu pai não tem valor comercial, é a preservação da cultura nacional que está em jogo."

A história esquecida de Edu se confunde com a história da gaita. Jaguarense radicado no Rio, amigo de Ernesto Nazareth e Pixinguinha nos anos 30, ganhou o registro de 'músico excêntrico' em sua carteira profissional - na época, a harmônica sequer era considerada um instrumento. O fato traumatizou Edu, que passou o resto da carreira tentando legitimar a gaita de boca através de iniciativas épicas, como a transposição do virtuosístico Moto Perpetuo, de Paganini, originalmente escrito para o violino. Em 1956, depois de 11 anos de estudo, finalmente conseguiu verter as 2400 notas para o sopro pelo caminho mais difícil: em vez de recorrer a arranjos e adaptações, fez questão de tocar a peça na íntegra.

A gravação da peça de Paganini é, aliás, uma de suas poucas performances disponíveis em CD (a coletânea Edu, mago da gaita, de 2001, da Revivendo, especializada justamente em desencavar os tesouros mais obscuros da música brasileira). A proeza chamou a atenção de músicos e orquestras do Brasil e do exterior. Radamés Gnattali compôs para ele o Concerto para Harmônica de Boca e Orquestra, executada pelo próprio no Theatro Municipal do Rio, em 1958. Edu fez turnês na Argentina e na Europa, abrindo caminho para uma nova geração de gaitistas de boca.

"Ele foi um pioneiro", diz o gaitista Maurício Einhorn, 79 anos, que já tocou com Jim Hall, Ron Carter e Baden Powell. "Edu popularizou a gaita na época dos discos de 78 rotações e dos tempos do Cassino da Urca, onde se apresentava antes que o jogo acabasse. Comecei minha vida profissional inspirado por ele."

Para Einhorn, a virada na carreira de Edu se dá com a introdução, no Brasil, da gaita cromática e seus tons intermediários, que o possibilitou executar melodias mais ricas. Assim que teve acesso ao produto, importado dos Estados Unidos, Edu passou a tocar tudo aquilo que sempre imaginava, mas não conseguia pelas limitações do instrumento.

"Acho que a música de Edu não teve a repercussão internacional que merecia", opina Einhorn. "Teve apenas um reconhecimento momentâneo depois da gravação do Moto Perpetuo. Se o Edu tivesse ido morar no exterior, é provável que não estivesse hoje no esquecimento. Mas, apesar dos convites, ele não queria ir embora, era um nacionalista."

Edu, que depois do fechamento do Cassino da Urca ganhava sua vida apresentando programas de rádio e televisão, começou a perder espaço nos anos 60, quando o rock e a Jovem Guarda monopolizaram a programação. Nos anos 70, já dava entrevistas demonstrando certo cansaço e desânimo com a profissão. Estudando obsessivamente sua gaita horas a fio, tornava-se a cada dia um músico melhor - e mais pobre. "No Brasil, quanto mais um músico evolui, menos mercado encontra", afirmou em uma entrevista de 1976.

"Antes de morrer, meu pai disse que a música foi a razão da sua vida", recorda Nadruz Filho. "Foram suas últimas palavras. Prometi a ele que iria fazer de tudo para preservar sua obra."

Detentora de parte significativa do acervo de Edu, a Universal declarou ao Estado, através da sua assessoria, que não prevê relançamentos de álbuns do músico. Afirmou também que o Departamento Jurídico e a Editora desconhecem qualquer pedido de liberação de suas músicas. Nadruz Filho reclama da falta de atenção, mas diz que o principal já foi feito.

"Doei todo o acervo que tenho dele para instituições brasileiras, americanas e alemãs. Apenas uma semana depois de enviar o material para a Universidade de Princeton, já encontrei em fóruns na internet mensagens de professores e alunos discutindo a execução do Moto Perpetuo. No exterior, vejo muito interesse por sua obra. Por outro lado, aqui no Rio fui obrigado a explicar ao Museu da Imagem do Som do que se tratava. Simplesmente não sabiam quem ele era."

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