Rachel Titiriga/Divulgação
Rachel Titiriga/Divulgação

Um mundo formado por borrões torturantes

Em 'O Corpo em Que Nasci', olhar dos outros modula a visão da escritora

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2014 | 02h04

Logo no início de O Corpo em Que Nasci (Rocco), a narradora conta que, ainda criança, era obrigada a andar com um curativo tapando um dos olhos - justamente o saudável, pois o outro apresentava uma obstrução de nascença da pupila. Segundo os médicos, a intenção era estimular o desenvolvimento do "defeituoso". O que acontece, no entanto, é que a menina, além de sofrer uma tontura constante, era obrigada a tatear um mundo formado por borrões sem forma, além de enfrentar os comentários maldosos dos colegas de classe.

A mexicana Guadalupe Nettel também nasceu com um olho que lhe oferecia apenas 10% da visão. Antes de levá-la a uma reclusão, o problema incitou sua carreira literária, especialmente ao tratar de temas que trafegam no tênue limite entre normalidade e anormalidade - e também como as fronteiras entre ficção e realidade aparecem irremediavelmente borradas para o leitor.

O Corpo em Que Nasci traz um longo depoimento da narradora no divã de um analista, lembranças dos acontecimentos que marcaram sua infância e adolescência no duro caminho do autoconhecimento. No meio do caminho, é atropelada pela sinceridade dilacerante dos pais e suas respostas honestas demais para sua pouca maturidade - em vez de fomentar respostas, as observações paternas deixam a menina ainda mais confusa.

Para completar o quadro sombrio, há a vizinhança formada por exilados argentinos e chilenos fugidos de ditaduras, cujas crianças não conseguem esconder o olhar triste. Mas, acredite, a narrativa de Guadalupe guarda também bons momentos de humor.

O Corpo em Que Nasci faz parte da coleção Otra Língua, dedicada a autores hispano-americanos. Sobre a obra, a mexicana Guadalupe Nettel, de 40 anos, respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

Que importância teve seu "defeito de nascença" relacionado à vista ao se dedicar à literatura?

Como contei em outras ocasiões, nasci com um olho menor que o outro, uma catarata e uma mancha na superfície da córnea. Enxergava muito menos que a média. Desde manhã até o meio da tarde, usava um tapa-olho no olho mais desenvolvido, de modo que durante minha infância me desenvolvi com uma visão de 10%. Por isso me interessa tanto o tema da visão e também o de normalidade/anormalidade. O fato de enxergar pouco e de ser, neste sentido, "diferente", me isolou de meu entorno. Para não expor esta vulnerabilidade, eu me refugiei primeiro em um mundo imaginário e, quando parei de usar o tapa-olho, nos livros. Escrever foi uma consequência natural dessa inclinação. Ademais, eu logo me dei conta de que isto também me oferecia uma oportunidade de me vingar dos coleguinhas de classe que me molestavam na escola, e não a desperdicei.

A literatura aparece muitas vezes relacionada de um modo ou de outro com o conceito de enfermidade. E, dentro dessas, as que se referem à vista são as mais presentes. Existe um vínculo entre cegueira e literatura?

A relação entre a literatura e a doença é apaixonante. Tanto na poesia como nos romances, as patologias de toda índole estiveram muito presentes. E, como você disse bem, a cegueira tem um lugar muito especial. Autores como Cervantes, Villiers de l'Isle Adam, Kipling, Beckett, Nabokov, Borges, entre muitos outros, abordaram o tema, tanto de fora como de maneira íntima, já que vários escritores foram cegos também. É um tema apaixonante que chega para muitas páginas. Alguns anos atrás, escrevi um pequeno ensaio a respeito.

A crítica destaca muito o aspecto sofredor de alguns de seus personagens, como se a exploração do duplo monstruoso fosse necessariamente dolorosa. Você compartilha a afirmação de que a sua escrita está muito ancorada na dor?

Uma ideia que desenvolvi em meus textos é que as pessoas vivem tratando de ocultar o que consideram seus defeitos e seus pontos fracos e se empenhando em aparentar que são "outras", quando, na realidade, é nestas características particulares que radica sua verdadeira beleza. Em vez de valorizar essa beleza original, elas fingem. Ocultam-se atrás de uma infinidade de máscaras de quem creem que deveriam ser. Como diria Shakespeare, "renunciamos ao que somos pelo que queremos ser". Nos momentos de dor ou nas situações limites, deixamos de aparentar. A máscara se levanta e é aí que se revela o brilho de nossa humanidade, frágil e por vezes muito valente, comovedora em todas suas contradições.

Você acredita na existência de um aspecto litúrgico na prosa?

A literatura tem por si um componente transcendental que poderia ser considerado sagrado ou mágico. Além disso, na liturgia há cadência e na prosa deve havê-la também. Por outro lado, por estranho que pareça, acredito na inspiração. Em certas ocasiões, comparo esta experiência às dos santeiros caribenhos e outros espiritistas que escutam vozes e garantem que "recebem o santo". No entanto, não acredito muito no caráter solene da literatura. Penso que lhe cai melhor o jogo e o desembaraço. Concordo com Julio Cortázar para quem era imprescindível "tirar a gravata" antes de se sentar para escrever.

Para você, o mal pode ser considerado um aliado da literatura?

É preciso ver primeiro o que chamamos de "mal". Creio que a literatura encontra um motor muito poderoso naquilo que nos causa incômodo, na vergonha, no nojo, na humilhação, no desejo de vingança para mencionar algumas das emoções que alguns chamam de "más". Escrever serve muitas vezes para compreender e explorar estas água profundas. Em Cartas a Un Joven Novelista, Mario Vargas Llosa garante que "o romancista autêntico é o que obedece docilmente àqueles mandatos que a vida lhe impõe, escrevendo sobre estes temas e evitando os que não nascem de sua experiência e não chegam à sua consciência com caráter de necessidade". Mas isto é apenas uma primeira instância.

Acredita que a literatura espelha a realidade, tão complexa e demais acelerada?

Uma ensaísta mexicana chamada Vivian Abenshushan abordou em vários de seus textos o tema de nossa vida acelerada de uma forma muito interessante e original. Não é a única. Escritores do mundo inteiro estão tratando de descrever essa sensação que você menciona. No entanto, não creio na existência de uma única realidade, mas sim de várias simultâneas. Sem ir mais longe, cada pessoa tem uma subjetividade muito particular e a literatura se concentra na maneira de interpretar o mundo de uma pessoa ou um par delas. Eu, como você, tenho a sensação de que o mundo caminha numa velocidade que causa vertigens, mas talvez não seja este o caso de centenas de milhares de pessoas que não têm acesso à tecnologia e nem sequer se interessam por ela, pessoas que possuem outros conhecimentos que talvez nos seriam muito úteis, como o de desfrutar do presente.

Fale sobre a influência de Enrique Vila-Matas em sua obra.

Respeito e aprecio muitíssimo o trabalho de Enrique Vila-Matas. Trata-se de um escritor muito original, apaixonado pela literatura e com uma grande capacidade de descobrir eventos estranhos disfarçados de acontecimentos banais. Durante anos, foi um escritor quase secreto, mas sua maneira de converter a literatura em matéria literária fez escola e agora tem muitos seguidores. Fiquei deslumbrada com alguns de seus livros iniciais, como El Viajero Más Lento e Suicídios Exemplares, aos quais volto constantemente, como volto a Bartleby e Companhia. Desde então, o venho seguindo, mas sua produção é muito intensa e não é tão fácil acompanhar seu ritmo. A influência que recebi dele foi sobretudo pessoal. Tenho a sorte de conhecê-lo e seus comentários sobre meu trabalho me guiam desde há muitos anos.

O CORPO EM QUE NASCI

Autora: Guadalupe Nettel

Tradução: Ronaldo Bressane

Editora: Rocco (224 págs., R$ 34,50)

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