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Um mundo de tulipas e de espinhos 2

Mais administração e menos política foi algo dito várias vezes

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2017 | 02h00

Richard Morse foi um famoso brasilianista com muitas análises sobre o País. Em duas delas (O Espelho de Próspero e A Volta de McLuhanaíma), tratou da questão do desenvolvimento e das nossas opções culturais. De forma original, acabou concluindo que somos pobres por opção. A pobreza e o subdesenvolvimento não seriam um acidente, mas um projeto. 

Temos cicatrizes malformadas e feridas profundas que datam de centenas de anos, mas a opção por mantê-las abertas é diária e reincidente. Invocamos história como maldição e não como identidade. 

A globalização não trouxe apenas kiwi, lichias e expressões como compliance ao nosso mundo. Trouxe também a concepção de empreendedorismo. Essa poderia ser a solução que nos falta! Pensemos sobre isso. Empreendedor é o indivíduo que pensa de forma autônoma, sem esperar o amparo burocrático do Estado. Ele seria aquele que vai à luta e muda sua história tendo ideias, crescendo e enriquecendo. A matriz norte-americana da ideia é clara e nossos MBAs enfatizam-na como solução. O que faltaria ao Brasil não seria neve ou colonização distinta, mas uma cabeça de transformação do real, de ação ousada, inquieta e inclinada a não aceitar o fácil e o dado.

 

Já fiz, publicamente, a crítica à teologia do empreendedorismo, confundida por análises mais ligeiras como crítica ao empreendedor. Quando critico os danos que a obesidade possa causar ao indivíduo não estou dizendo que comer seja ruim. Concebida de forma indiscriminada e universal, a ideia de empreender é geralmente relida como um elemento messiânico e salvífico. Verdade que a independência do Estado é um campo interessante, mas nossos maiores empreendedores viveram integrados ao BNDES de forma xifópaga. Gostamos da ousadia com juros subsidiados. Muitos livros mostram fórmulas (dez caminhos para o empreendedorismo, o paraíso dos empreendedores, dez passos para o sucesso). Ora, a fórmula é a morte do empreendedorismo. O empreendedor de verdade não segue fórmulas nem decálogos. 

O empreendedorismo pode conter uma preciosa lição. Crer em fatalismo ou no caráter determinante de qualquer coisa é um obstáculo ao crescimento. Para superar isso, colaboraria uma educação sólida que desenvolvesse o sentimento do ser humano como ser histórico, produtor de suas cadeias de felicidade e de dor, de opressão e de liberdade. Ditaduras e democracias, riqueza e pobreza: tudo depende de uma série de escolhas individuais e sociais, nem todas elas feitas de forma consciente ou voluntária. Se percebo a construção, posso sentir-me livre para alterar sua configuração.

A solução seria aumentar ou diminuir o Estado? O enigma estatal deve ser superado fugindo às dicotomias liberais de BNDES vs estatizantes messiânicos. O Estado brasileiro é grande, excessivo, inchado e caro em muitos setores. Acima de tudo, é corrupto. Mas (ou até por isso) o Estado é magro e pouco presente em alguns campos essenciais. As soluções sem Estado ou com Estado devem ser mais tópicas; onde o Estado precisa crescer e onde precisa diminuir.

 

Administrar não é oposto à política. O governo ditatorial de Porfirio Diaz, no México, incluía uma ideia de administração mais técnica e menos ideologizada. Mais administração e menos política foi algo dito várias vezes. Geralmente, esse é um recurso utilizado para justificar um controle de um grupo sobre a sociedade, alegando que representa uma opção mais racional e que a mobilização política atrapalha o crescimento. Toda decisão técnica nasce da política e da concepção de política. Não existe nada que seja livre do debate político. Além do mais, Estado é uma coisa, empresa é outra. Gerir uma empresa como um Estado ou vice-versa é decretar falência de antemão. 

A solução para crescimento será política. O nó górdio continua na educação e, enquanto este não for desatado, continuaremos sem política eficaz e sem administração efetiva. 

Mas qual educação? A maioria absoluta do Brasil não pode pagar uma boa escola. A escola pública é um imperativo categórico e estratégico. Não se trata mais de posição ideológica: é escola pública ou morte, educação para todos ou o fim de algum projeto Brasil. 

Há um princípio que não encontra exceção: ou o próximo governo eleito concentra toda energia na educação ou não precisaremos mais debater. Aulas de qualidade, escolas com mínimas condições materiais, professores pagos com dignidade e orientados a novos cursos de atualização, projetos de educação vinculados a projetos de Estado e não a projetos de partido. Isso como plano para os próximos 50 anos e não para o quadriênio do eleito. De uma vez por todas: gente competente e que trabalhe nos projetos. Atividades variadas, lúdicas, de criação, com arte, música, humanas, exatas, muita leitura, pequenas excursões de campo, reflexões críticas e abertura. Que diminuam a burocracia, que encolham as reuniões pedagógicas intermináveis e a desconfiança recíproca entre os pais, professores, funcionários, alunos e agentes públicos.

Simples assim: educação pública e de qualidade, inclusiva, crítica, sem precisar de aparelhos mirabolantes. Salas limpas, banheiros funcionais e professores bem formados. Direções e coordenações servindo de apoio e não de obstáculo. Tudo tem de ser bem concatenado. Sem um ensino superior de ponta não formo bons educadores. Sem eles, não há ensino fundamental decente. 

Teremos mais uma chance de repensar o projeto brasileiro nas eleições. Também podemos continuar na barbárie atual. É uma escolha. Boa semana a todos. 

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