Um mundo de sonhos localizado além do arco-íris

Crítica Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

20 de março de 2013 | 02h10

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

Está na apresentação de O Mágico de Oz, a nova edição da Zahar. Embora sem crédito - o texto pode ser do tradutor Sérgio Flaksman -, o autor afirma que O Mágico de Oz está para os EUA como Alice no País das Maravilhas está para a Inglaterra e os Contos dos Irmãos Grimm para a Alemanha. Não só faz sentido como é verdadeiro. Há um culto ao livro de L. Frank Baum e ao filme que dele retirou a Metro. O crédito para o estúdio não é fortuito.

Antes do filme de Sam Raimi, é preciso falar do de Victor Fleming. Jean Tulard observa, no Dicionário de Cinema, que ele não foi qualquer um. Fleming deve sua fama a dois filmes que fez no mítico ano de 1939. Dois filmes que, na verdade, assinou, porque um batalhão de técnicos e diretores se revezou em ...E O Vento Levou e O Mágico de Oz. Pelo primeiro, chegou a ganhar o Oscar. Ambos produzidos pela Metro. E ambos celebrando o paradigma que Raimi quebra em Oz - Mágico e Poderoso.

O novo Oz é a prequel do velho Mágico de Oz, mostrando como um mágico do Kansas, um farsante, levado por um tufão, vai parar num mundo mágico. Ele vai virar o mágico de Oz, mas isso toma tempo porque, durante boa parte do tempo, o mágico, interpretado por James Franco, quer mesmo é voltar para Kansas. Nisso antecipa a menina Dorothy do longa de Victor Fleming. Ela também é levada por um tufão que atinge o Kansas. Sua vida, como a do mágico Franco, é em preto e branco e Dorothy sonha com o mundo além do arco-íris. Judy Garland, que faz o papel, chega a cantar Over the Rainbow, antes de penetrar num mundo mágico, em que a cor substitui o PB.

Virou moda falar de O Mágico de Oz, mas, com todo respeito, é uma atitude infantil, para não dizer burra. O Mágico de Oz é o mais família de todos os filmes. Mais que uma fantasia, virou a quintessência da reflexão que Hollywood faz sobre si mesma. A vida em Kansas é a vida ordinária (medíocre?) do espectador comum, e você tem de se lembrar que o filme foi produzido ainda nos anos 1930, devastados, nos EUA, pela depressão econômica. Oz é Hollywood e o mágico, o poderoso tycoon Louis B. Mayer.

Muita gente se pergunta - por que Dorothy quer tanto voltar para casa, se em 1939 tudo o que o espectador queria era sonhar no escurinho do cinema - como a Cecília de A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen. A ideia era clara - sonhar é válido, alimenta a indústria, mas mesmo Hollywood adverte que, como o cigarro que faz mal à saúde, é importante não quebrar o vínculo com a realidade. Tanto O Mágico de Oz quanto ...E o Vento Levou celebram o mais hollywoodiano dos temas (com a segunda chance) - o retorno ao lar. Victor Fleming, um autor?

Sam Raimi agora quebra o paradigma. O mágico vai e fica, pois, como se trata de uma prequel, ele precisa esperar por Dorothy. Como Sam Raimi não detinha os direitos do filme da Metro para reproduzir seu visual, ele voltou ao livro de Baum e, contratando profissionais que formataram a Alice de Tim Burton, criou um mundo extravagante próximo do de Lewis Carroll. Na história, o mágico derrota as feiticeiras - que também vão voltar - e liberta Oz. Na verdade, como outros movimentos de libertação, Oz vai virar uma ditadura, mas isso será depois. Para vencer, o mágico precisa se (auto)descobrir e usar truques, o maior deles é o cinema. Oz - Mágico e Verdadeiro, como O Mágico de Oz, é uma metáfora sobre o cinema. E é um belo filme.

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