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Um mundo com menos

Não era necessário, parece, que as crianças fossem intensamente felizes 24h por dia

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2018 | 02h00

Minha infância foi a comum da classe média brasileira de então. Se eu tivesse de identificar a grande diferença entre ser uma criança em 1970 ou 2018 no mesmo patamar social, eu apontaria para a variedade atual. Variedade do quê? Tudo.

Sobre a mesa da nossa cozinha repousavam bananas, laranjas, ocasionalmente maçãs. Havia um abacateiro por perto e, na época certa, os frutos ameaçavam carros e cabeças. Minha avó tinha uma videira com cachos de uma uva rosada. Gostávamos das mexericas, chamadas no Sul de bergamotas. Surgia de quando em vez um tipo de mamão amarelo e algum melão. Nada de kiwis ou da bela e insípida fruta-dragão. Desconhecíamos physalis. Vi minha primeira lichia já doutor.

Havia chocolates. Eram sempre doces e com leite. Hoje há com 75% de cacau, com leite, com pimenta e com grãos de flor de sal. O café chegou ao paroxismo máximo: descafeinado, com aroma, intensidades variadas, com espuminha de leite, nuvem leve de canela, traços de pó de cacau e até grãos defecados por um animal. O simples refrigerante, hoje, comporta as possibilidades de vir acompanhado de gelo, limão em rodelas, suco espremido ou fatias de laranja. Também pode ser zero, diet ou com sabores especiais.

Quase tudo que ocorreu faz parte de um processo de mundialização cada vez mais intenso. Exportamos e importamos com maior facilidade. Além dos fatos econômicos e geopolíticos, a informação circula mais e entre mais gente. Apesar da explicação óbvia, há mais coisas atrás do biombo.

Eu usava um calçado esportivo preto chamado ki-chute nas aulas de educação física. Hoje, uma prateleira de tênis na loja é uma festa de cores cada vez mais impressionantes. É difícil escolher um em 2018, em parte porque ficaram mais caros e em parte porque trazem excesso de informações. Sempre vejo nos tênis atuais a chance boa de que, em caso de cair em meio à neve em área isolada, serei visível até para um satélite do espaço.

Todo mundo que teve menos escolha e liberdade olha para hoje com a tendência de indicar que era mais feliz com menos e que as crianças atuais são mais entediadas. O desejo do consumo existe em todos os grupos sociais, ainda que nem todos possam atendê-lo. Zygmunt Bauman chega a sugerir que as lojas fossem denominadas farmácias, porque oferecem remédios para variados males. Está triste? Compre! Está eufórico? Compre! Está com tédio? Compre!

O mundo da internet tem um efeito secundário importante. Ele escancara as possibilidades de tudo para todos. Mesmo que eu não possa comprar X ou Y, estou exposto às ofertas. Sou seduzido como um Ulisses amarrado ao mastro, ouvindo sereias e ficando insano. A loucura passageira do rei de Ítaca pode ilustrar bem o desejo de consumir inexistindo a possibilidade. As sereias excedem a possibilidade de renúncia. Todos queremos nos atirar às rochas dos produtos.

Havia diferenças sociais (inclusive maiores do que as de hoje) quando eu tinha 7 anos. Havia pobres e ricos e, provavelmente, um maior conformismo com as desigualdades. É difícil comparar épocas. Queríamos coisas e desejávamos consumir. Tenho a sensação subjetiva de que aceitávamos melhor a recusa da nossa vontade. Não era necessário, parece, que as crianças fossem intensamente felizes 24h por dia.

Despontam duas diferenças notáveis que tornam a infância e a juventude de hoje distintas da minha. Associamos a ideia de variedade ao conceito de liberdade. Mais coisas a escolher parece representar maior liberdade, quando apenas quer dizer mais coisas a escolher. A expansão dos nomes das pizzas no cardápio não gera um aumento na qualidade do que é oferecido, tampouco alegria efusiva. Ter tudo à disposição roça em quase ter nada.

Temos equilibrado no mundo atual dois malabares no ar instável: a oferta excessiva de coisas para um grupo e a negação do consumo para muitos. Isso gera uma frustração muito grande. Seria como matar de fome uma pessoa em uma delicatessen com cheiros sedutores.

Como explicar que a diminuição visível da desigualdade de renda em alguns anos do século atual não foi acompanhada de uma queda de furtos ou roubos? Devemos levar em conta que a força do consumo aumentou e nem sempre o crime é famélico. A lei é quebrada pela busca de status, por um celular mais avançado e pelo tênis importado. Matamos e morremos por logomarcas e seu valor simbólico. Uns estão entediados pelo excesso e outros ressentidos pela falta. Ambos constituem uma dupla complicada para um projeto nacional.

O processo de globalização é irreversível. As promessas de variedade e abundância foram incorporadas no mundo do desejo de muitas pessoas. Todos querem ser felizes e isso, hoje, implica consumir. Lógico que, no modelo atual, o consumo é insustentável. O padrão da classe média norte-americana não pode ser universalizado, o planeta não aguentaria o modelo. O primeiro problema está aí. O segundo está na tensão causada pela exposição clara de altos padrões de consumo para todos, inclusive para quem não pode adquirir as coisas que deseja. Em função disso, aumenta tanto a dor social de quem nada tem como o endividamento dos que possuem pouco.

Por fim, o terceiro e último problema: acima dos padrões das necessidades básicas, o consumo não tem poder redentor ou de esteio de felicidade. É um ópio, uma cortina de fumaça, uma forma de não encarar as questões centrais. Eis um enorme desafio para ensinar às próximas gerações. Bom domingo para todos nós.

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