Um mito de carne viva

A fragilidade física não encobria a força de uma voz poderosa - ao morrer de overdose com apenas 47 anos, em 1969, a atriz Judy Garland já era eterna graças a um estilo único de cantar e atuar, que até hoje inspira seguidores. Mesmo assim, lutou contra um coquetel de problemas no final da vida, dividida entre o consumo exagerado de álcool e drogas e as insuportáveis imposições públicas, que desejavam ver apenas o irretocável mito criado para ela.

UBIRATAN BRASIL / RIO, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2011 | 03h05

É justamente desse período final - entre o Natal de 1968 até sua morte, em junho do ano seguinte - que trata o musical Judy Garland - O Fim do Arco-Íris, estreado sábado, no Teatro Fashion Mall, no Rio.

"Trata-se de uma verdadeira descida ao inferno", comenta Claudio Botelho, tradutor e coordenador musical da montagem dirigida por Charles Möeller. "Carregando o pesado fardo de ser eternamente a Dorothy de O Mágico de Oz, ela era, naquele momento, uma mulher feia, gorda, com dentes ruins, complexo de inferioridade mas, acima de tudo, com uma voz inigualável."

A montagem se passa em Londres, onde Judy busca um novo reinício depois de uma internação de várias semanas em um programa de reabilitação. Ao lado de um jovem gerente de clube noturno, que se tornaria seu empresário e quinto marido, Mickey Deans (Igor Rickli), e de um amigo de longa data, o pianista Anthony (Gracindo Junior), ela se prepara para cumprir uma temporada com lotação esgotada na boate Talk of The Town. "Apesar da insistência de Mickey, que quer a todo custo que as apresentações sejam realizadas (nem que isso implique em retomar a dependência química), Judy sabe que não conseguia mais dar o seu melhor", observa Möeller. "E o que se vê em cena é uma mulher de extraordinário talento, mas derrotada por uma série de imposições que ela não quer (ou não pode) cumprir."

Magos do teatro musical no Brasil, principais responsáveis pela consolidação do gênero em nossos palcos, Botelho e Möeller receberam o texto quando ainda era inédito - a dupla estabeleceu um contato mais próximo com o dramaturgo inglês Peter Quilter depois de montar outro de seus trabalhos, Gloriosa, com Marília Pêra. "Lemos a peça, que não é propriamente um musical, e nos apaixonamos", conta Botelho, que assistiu à montagem londrina no fim do ano passado ao lado de Möeller.

Graças à amizade, eles receberam o apoio do autor para escolher canções de Judy mais conhecidas dos brasileiros, como Get Happy, e até uma versão de Insensatez. O grande acerto da dupla, porém, foi escolher uma velha conhecida, a atriz e cantora Cláudia Netto, para o papel principal.

Afinal, nenhuma outra artista alcançaria Cláudia no papel. Sólidas interpretações em musicais como Company, Avenida Q e O Rei e Eu não passaram de uma preparação para seu apogeu em Judy Garland: soberana em cena, Claudia equilibra a fragilidade com a inteligência de uma mulher desesperada. Isso, a partir de detalhes preciosos, como a debochada gargalhada, o humor afiado e a triste consciência da derrocada.

E a surpresa continua com as canções. Depois de uma detalhada preparação (leia no quadro), Claudia aproximou-se da perfeição ao retratar a voz já falha, porém, poderosa de Judy. "O grande mérito do texto é não ser didático", comenta Möeller. "Com isso, Judy não é apenas uma vítima, Mickey, o vilão e Anthony, o patinho feio." Anthony, aliás, é um personagem fictício: representa todos os amigos e fãs gays que, de alguma forma, apoiaram a cantora. "A morte dela foi uma comoção e serviu como estopim para a liberação homossexual", completa Botelho.

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