Um milagre para levar o público às lágrimas

O produtor Paulo Thiago fala sobre Aparecida, que trata de fé e conversão

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2010 | 00h00

Diretor há 40 anos - Os Senhores da Terra é de 1970 -, o mineiro Paulo Thiago raramente se aventurou pelo universo da religião, embora num determinado momento tenha acalentado o sonho de adaptar A Menina de Lá, de Guimarães Rosa, que terminou integrado por Nelson Pereira dos Santos, com outros contos do escritor, ao projeto de A Terceira Margem do Rio. Thiago define-se como ateu, mas, ultimamente, a mulher - Gláucia Camargos, sua parceira na arte e na vida - e ele deram de sonhar com um grande filme popular, daqueles que arrebatassem multidões. Pensaram no futebol, optaram pela religião. Thiago não dirige, só produz.

Como a tradição religiosa mineira é indesligável do catolicismo - com todas aquelas igrejas barrocas -, ambos, marido e mulher, se voltaram para a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. E fizeram Aparecida - O Milagre, que estreia hoje em mais de 300 salas. Num ano marcado por grandes sucessos de público do cinema brasileiro - Tropa de Elite 2 à frente -, a expectativa é de que Aparecida feche 2010 cravando mais alguns milhões de espectadores. O filme é a reação católica à onda espírita de Chico Xavier e Nosso Lar? Parece óbvio pensar que assim seja, mas Thiago, mesmo destacando a importância que foi o apoio da Igreja Católica, tenta desvincular Aparecida do conceito de filme religioso.

O filme é um melodrama, feito para chorar. Um rio de lágrimas tem acompanhado as sessões especiais de Aparecida, que agora se abre para o grande público. Vamos logo dizendo que não é filme para críticos. Eles vão implicar, e com razão, com as redundâncias narrativas, com as imagens icônicas - a relíquia resgatada do rio, o milagre dos peixes - que voltam a toda hora, como se a diretora Tizuka Yamasaki não confiasse muito no público e se sentisse obrigada a reafirmar continuamente sua mensagem de amor e fraternidade. Mas talvez seja outra coisa - uma questão de ritmo, que também se manifesta na trilha composta pelo estreante Paulo Francisco Paes, filho do casal de produtores (leia texto abaixo).

Thiago esclarece que o apoio da Igreja veio após um momento inicial de dúvida e consistiu basicamente, o que não foi pouca coisa, em autorizar as filmagens no Santuário de Aparecida. "Sem a basílica não teríamos filme", avalia o produtor. Ele conta que o roteiro passou por diversos tratamentos - e tem diversos créditos -, antes que Tizuka fosse contratada, como diretora convidada.

A proposta é de cinema narrativo, contando uma história de fé. Murilo Rosa faz o empresário que se afastou da mulher e do filho. Acumulou riqueza, mas é incapaz de amar, ou de manifestar seu amor. Ele odeia a santa, a quem culpa pela morte do pai e agora tem de prostrar a seus pés, pedindo que intervenha para salvar seu filho. Num determinado momento, Thiago foi aconselhado a tirar o desabafo de Murilo, gritando que odeia Nossa Senhora. Não haveria conversão sem esse rancor, essa amargura. No final, todo mundo chora, a santa vence. Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. A dúvida que persiste é se haverá milagre na bilheteria.

APARECIDA - O MILAGRE

Direção: Tizuka Yamasaki.

Gênero: Drama (Brasil/ 2010, 92 min.). Censura: Livre.

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