REPRODUÇÃO
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Um mestre e suas refinadas lições

Na reedição (aumentada) do heterogêneo conjunto de textos de Antonio Candido, O Albatroz e o Chinês, lançado originalmente em 2004, as ponderações e tonalidades do livro revelam uma provisão cultural e um gosto literário que fazem contraste com as fragilidades da crítica novidadeira. A começar pela epígrafe do livro, em que o autor une poesia de Drummond e irônica mea culpa: "Que confusão de coisas ao crepúsculo!" Mas a diversidade das lições, neste caso, faz ver que a dispersão das coisas não significa dispersão do sujeito; é na integridade do ponto de vista deste que elas ganham uma singular convergência e acionam nosso interesse.

ALCIDES VILLAÇA, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

A escritura do crítico é, como sempre, primorosa e imediatamente legível. Os procedimentos artísticos de cada escritor estudado ganham iluminação, referidos ao quadro histórico que ajudam a iluminar; o gosto, elemento tão decisivo na produção e na recepção da arte, tantas vezes escamoteado, sai da sombra da hipocrisia e se expõe na alimentação do limite crítico, em que se inicia o debate da significação. A essa recolha com ar casual de ensaios literários, depoimentos, artigos introdutórios e retratos amigos, dividida em três blocos, não faltam lições de toda ordem, que vão além do fôlego de uma resenha. Destaco umas poucas.

O carro-chefe é o ensaio que abre o livro e lhe dá o título. Trata-se do acompanhamento minucioso e interpretativo de figurações simbólicas do alto e do baixo, do aberto e do fechado, da natureza e do artifício. Em Goethe, Baudelaire e Mallarmé, mas também em Guérin, Castro Alves e Antonio Feijó, o crítico acompanha o voo do albatroz, o olhar de cima ou para cima, o planar condoreiro, a aspiração de absoluto, em seu intentos de representação do mundo (nos quais transparecem expectativas históricas) e em seus esforços de invenção de um universo criativo autônomo.

Nessa dialética se engendram movimentos que serão típicos da arte moderna, como aquele em que a simbolização se projeta contra seu próprio espelho, explorando nele mais o sistema fechado dos signos do que os sinais vivos do mundo aberto. Entre o rastejar do albatroz de Baudelaire, em que o poeta alegorizou a perda da altura e a queda mundana do sublime (sem deixar de vingá-lo, no entanto, na elevação dos versos alexandrinos), e a figura de um chinês em porcelana, que serve a Mallarmé como ideal de representação serena, alcançada pelo essencialismo dos traços, Candido vai identificando, mais que obsessões estéticas, modulações de percepção a um tempo pessoais e históricas, que revelam posicionamentos subjetivos e constituem decisões formais. Ler poesia é, nessa medida, compreender o traçado singular dos símbolos e reconhecer a posição de quem os traceja.

Há, como esse, outros ensaios de peso, como A Culpa dos Reis: Mando e Transgressão no Ricardo II. Shakespeare é lembrado como o poeta que constitui um sistema de imagens para figurar as oscilações dramáticas do poder. Candido considera que uma boa porta de entrada do "sistema simbólico" da peça é o símbolo do fluido, "um fluido que participa ao mesmo tempo do mundo da planta e do mundo do homem, sendo seiva no primeiro, sangue no segundo e estabelecendo entre ambos uma reciprocidade que permite ler um em função de outro". Ler uma tragédia política supõe reconhecimento das construções simbólicas que servem não apenas à arte de um texto literário, mas à sustentação (ou declínio) da razão da autoridade.

A lição de ler o plano estilístico na relação com o histórico prossegue. Em ensaios menores, como Ressonâncias, Batalhas e Romantismo, Negatividade, Modernidade, Candido vai lembrando a importância de referências cruzadas na literatura (nas modalidades da inspiração ou da citação), da comparação entre resultados distintos de motivações semelhantes (descrições de batalhas, por exemplo) e da noção de negatividade que caminha de sua configuração romântica para a moderna.

Mas, para aproveitar uma lição mais geral do livro, prendo-me ao que nele me estimula especialmente, e que é a ênfase da pessoa: a do crítico mesma, a de um autor estudado, a de um amigo lembrado. As aproximações de Candido com Eça de Queirós, João Antônio (especialmente lúcida), Ernst Jünger, Pio Lourenço Corrêa, Jean Maugüé, Lúcia Miguel Pereira, entre outros, pautam-se também pela tonalidade do afeto, que não elimina a aproximação objetiva, tornando-se, pelo contrário, via privilegiada para a compreensão justificável do que merece ser debatido.

Muito acima do falso dilema entre o personalismo fútil (vendido como trade mark no comércio da falta de ideias) e a impessoalidade olímpica (que pretende absolutizar a isenção, impossível diante da arte), Candido não teme nem a acusação de "falácia biográfica" (pela qual se ignora que o artista é gente), nem a de "falácia autobiográfica" (pela qual a identificação eu é rebaixada à condição de "odioso pronome"). Tal desenvoltura, em pleno equilíbrio, não é a menor das lições desse livro.

ALCIDES VILLAÇA É CRÍTICO LITERÁRIO E POETA, PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA USP E AUTOR DE PASSOS DE DRUMMOND (COSAC NAIFY)

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