Um mestre e seu universo íntimo

Masp exibe ampla mostra de Evandro Carlos Jardim com obras de diferentes períodos, entre elas, conjunto inédito

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2010 | 00h00

Ensaio metafórico. Pintura do gravador e pintor de 2008: acontecimento interpretados 

 

A cidade é sempre uma tentativa de paisagem para Evandro Carlos Jardim. "Não há compromisso forte com a verossimilhança dos lugares, mas captar uma atmosfera, seu entorno, aquele invisível que fica guardado no visível, o ícone, a terceira imagem", diz o artista no Masp em frente de uma parede com mais de 60 gravuras de uma série a qual ele se dedica desde a década de 1970 até hoje.

É que nas criações de Carlos Jardim, em campos diversos como o gráfico, o pictórico, o escultórico e até o fotográfico, um repertório comum de figuras se faz presente: elas vão e voltam ao longo dos anos e em diferentes obras, juntam-se ou isolam-se, ficam coloridas ou em preto e branco. Enfim, deixam de ser simples representação para se transformar em entidades metafóricas. É o que se pode ver na ampla e bela exposição que o artista apresenta a partir de hoje para o público no Masp.

Em 1973, Evandro Carlos Jardim, hoje, com 75 anos, exibiu no mesmo museu a mostra A Noite, No Quarto de Cima, O Cruzeiro do Sul, Lat. Sul 23º32"36"" Long.W.GR. 46º37"59, com curadoria de Pietro Maria Bardi. Agora, o artista faz revisão dessas criações, apresentando os originais daquela exposição emblemática (em que seus trabalhos foram expostos nos cavaletes de vidro criados pela arquiteta Lina Bo Bardi) junto de obras novas ? muitas delas, inéditas. Entretanto, esse diálogo entre os tempos se faz de maneira natural, porque é uma característica da produção do artista o ir e vir dentro de uma poética muito própria. Sendo assim, tanto em gravuras como em pinturas estão registros interpretados, como diz o artista, de acontecimentos que colheu na paisagem da cidade São Paulo, a partir de visões de cenas de caráter afetivo e íntimo também e criações de naturezas-mortas.

"Trabalhei na zona sul, na margem do Rio Pinheiros, indo de Santo Amaro até o Jaraguá", conta o paulistano Evandro Carlos Jardim. "Não são acontecimentos tratados de forma literal, mas interpretados, o que deixa em aberto para se imaginar", continua o artista, um mestre de tantos outros criadores. "Na verdade, trabalho com poucas imagens porque o que me interessa são os elementos estéticos intrínsecos às linguagens, que a plástica explique o conceito e não seja apenas um recurso paralelo. São ensaios gráficos, conversões de luz e cor, uma tentativa", diz ainda Evandro Carlos Jardim.

É, assim, um trabalho reflexivo. "Penso no tempo como maturação, um contínuo", afirma o artista. Em suas gravuras, feitas nas técnicas do metal, da água-tinta e da xilo, ou nas pinturas e na tridimensionalidade de objetos escultóricos, árvores, pássaros, homens, o rio e a paisagem não se encerram apenas nas belas imagens, mas ganham ainda mais poesia com as palavras que Carlos Jardim associa aos trabalhos, principalmente, colocando-as na parte inferior de suas obras gráficas. Não são títulos para as obras, mas "anotações escritas", "expressão de um sentimento".

"A palavra e a gravura sempre foram concomitantes", esclarece. Frases e versos contribuem também para que faça uma associação da imagem com os elementos estéticos que lhe são tão caros ? por exemplo, numa de suas gravuras do Pico do Jaraguá (uma marca do artista) está escrito com sua letrinha, em 1979: "Jaraguá, seus sinais, manchas e sombras".

Têmpera. Ainda de uma maneira mais abrangente, a exposição, agora com curadoria de Luiz Armando Bagolin, promove o diálogo das obras gráficas de Carlos Jardim com as pinturas (um conjunto bem significativo) que ele também sempre realizou em sua trajetória, sempre na técnica da têmpera. Tudo vai ficando lado a lado, se misturando, porque interessa ao artista a imagem e o que seria o invisível dela, seu "núcleo", não bastando o encerramento em um gênero. No vaivém do tempo e dos ícones, é curioso ver em uma das paredes da exposição o único óleo da mostra, de 1954, em que está pintada uma figueira encontrada no KM 23 da estrada para Itapecerica da Serra, ao lado de duas têmperas de 2009 em que a árvore aparece no mesmo ângulo.

Além das 250 obras presentes na exposição, o artista produziu em parceria com a Imprensa Oficial do Estado um pequeno livro (plaquete) com 20 imagens impressas em dois tons de preto, edição com projeto gráfico do fotógrafo João Luiz Musa. Também dentro da mostra, Carlos Jardim oferece conjunto de gravuras originais para serem manuseadas pelo público entre as várias atividades que serão feitas pelo serviço educativo do Masp, coordenado por Paulo Portella. Em uma vitrine estará obra feita em 1971 pelo artista, um diploma oferecido a uma autoridade do Governo Federal, a pedido de Bardi e com texto de Wesley Duke Lee.

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