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Humberto Werneck
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Um mestre da maledicência

Não esqueço o dia em que Murilo Rubião me apresentou a Eduardo Frieiro – o escritor que, a meus olhos de moço, era pouco menos que um inimigo, capaz que fora de hostilizar Carlos Drummond de Andrade, num tempo em que meu poeta andava, como eu naquele momento, pelos 20 e poucos anos de idade. 

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

07 Julho 2015 | 02h00

Então era ele! No entanto, o demo parecia inofensivo, e até frágil, e não só porque fosse miudinho e beirasse os 80, nada indicando que daria conta de chegar, como chegou, aos 92. Com o colarinho abotoado e um paletó que certamente atravessara décadas, Frieiro me deu a impressão de ter apeado de uma velha fotografia de parede. Um desses senhorzinhos, avaliei, que esposas mandonas vestem da cabeça às meias e, no mais frondoso verão, não deixam sair à rua sem um casaco de lã.

Com tudo isso, Eduardo Frieiro seguia ativo, tanto que por aqueles dias publicara mais um livro, Feijão, angu e couve, ensaio instantaneamente clássico sobre a cozinha mineira. Nós, os moleques que Murilo Rubião levara para trabalhar com ele no Suplemento Literário, ridicularizamos o título, e houve quem (não eu) sacasse variantes culinárias de outras obras de Frieiro. Os livros, nossos amigos virou “Nos vidros, nossos amidos”. Como era Gonzaga? tornou-se “Comera Gonzaga?”, e Inquietude, melancolia, “Quitute, melancia”. Escapou A Ilusão literária, que mais de uma vez vi Otto Lara Resende recomendar, com ênfase, como leitura indispensável não só para escritores em formação. 

Autoridade e experiência para dar lições é o que não faltava ao autodidata Frieiro, moço pobre, filho de imigrante galego, que não pôde ir além do curso primário, e ainda assim chegou a professor catedrático de literatura espanhola. Muito além de bibliófilo, montou e dirigiu a maior biblioteca estadual de Minas. Não se interessava apenas pelo texto: começou como tipógrafo e veio a ser um refinado conhecedor das artes gráficas. A ele se deve a irretocável primeira edição do livro de estreia de Drummond, Alguma poesia, de 1930, hoje disponível em edição fac-similar. No Rio, o passadista Medeiros e Albuquerque não viu poesia alguma no volume – mas reconheceu nele “alguma tipografia”. 

Devemos mais a Frieiro: por sua iniciativa e sob seus obsessivos cuidados, existiu em Belo Horizonte uma cooperativa de autores, Os Amigos do Livro, responsável por lançamentos como O Amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos, e Brejo das almas, de Drummond. Sim, gente nova. O editor embirrava com a rapaziada modernista, mas lhe dava força no apuro físico das edições. Como se dissesse: que ao menos neste aspecto a coisa pare em pé. 

Nisso não transigia. Quando, em 1925, os moços lançaram A Revista, ele bateu pesado, criticando a “feitura gráfica ronceira” da publicação. Bateu também no conteúdo, claro, e não poupou o líder informal do grupo: sem citar o nome, gozou Drummond como “aquele mocinho esgrouviado que tem cara de infusório”. O jovem poeta – seu colega na Imprensa Oficial – “espremeu tudo o que em fermentação lhe escaldava o caco, e que não era muito; apenas a borra das últimas, apressadas leituras de revistas francesas. Agora está aliviado. E os leitores também.”

Como os modernistas de Minas, aprendi a gostar também desse Frieiro belicoso. 

Não conseguia dominar a própria língua quem tão bem dominava a língua portuguesa. Dois anos depois de se livrar da vesícula, na década de 1940, ele registrou em seu diário: a saúde, de forma geral, tinha melhorado; com a glândula se fora, entre outras macacoas, “uma prisão de ventre histórica”. O saldo positivo, porém, não bastava para fazer dele um homem feliz: “Já não sou o mesmo Frieiro, bilioso, ácido, mordaz, apto como poucos para o cultivo daquela ‘art of making enemies’, tão prezada pelos britânicos seletos”.

Faço ideia do que seria ele se ainda tivesse a vesícula, penso eu quando volto às 395 páginas de seu Novo diário, encharcadas de veneno e maledicência, publicadas em 1986, quatro anos depois de sua morte. Nas primeiras linhas, Frieiro conta que pôs fogo nos originais de um texto anterior àquele, o Diário de um homem secreto, por haver chegado à conclusão de que nele só havia “maldade, inconveniências, orgulho, peçonha, muita peçonha”. É verdade que se arrependeu do arrependimento, pouco depois de ver arderem os 22 cadernos que sua letra caprichada enchera ao longo de uma década. 

“Maldizente, sim; malfazejo, nunca”, assume Frieiro já na epígrafe do Novo diário, iniciado quatro anos depois de o fogo silenciar o Diário de um homem secreto. E põe maldizente nisso. Mas graça não lhe falta, e eu gostaria de voltar ao assunto, se você não se opuser.

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