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Um mestre butô em Belém

A mesa ao lado era a mais animada de um restaurante no igarapé Periquitaquara, lá na ilha do Cambú, que se estende nas águas cor de ferrugem do Guamá. Tomava um suco de taperebá quando ouvi um japonês dizer três palavras em inglês aos membros de uma equipe que filmava naquelas paragens.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2013 | 02h15

Essas palavras - shampoo, poison, ecstasy - me deixaram intrigado. Me aproximei da mesa dos atores e perguntei ao japonês o que ele queria dizer com isso. O homem magro e baixo olhou para uma travessa com arroz e disse em inglês: shampoo é maravilhoso.

Só então entendi que ele se referia ao jambu: a erva deliciosa que enobrece ainda mais a culinária da Amazônia.

O estrangeiro chamava-se Takashi; era um mestre butô e tinha viajado de Berlim a Belém para mostrar sua arte a atores brasileiros. Conversamos sobre butô e o filme e, quando o mestre disse que Belém era uma magia, perguntei: por quê?

"Porque tudo me surpreende nesta cidade", ele disse.

Mencionou as pancadas de chuva, pontuais e breves. O cheiro, o tamanho e a idade das mangueiras, que impressionariam um indiano; as feições asiáticas de muitos paraenses; citou o Museu Goeldi, a Cidade Velha, o Mangal das Garças e uma cena que ele tinha visto no porto: garças e urubus, juntos e em paz, bicando vísceras de peixes enormes. Um mendigo, com uma manga verde sobre o peito, dormia numa calçada, enquanto uma ratazana saía do esgoto e atravessava a avenida Generalíssimo Deodoro. Enumerou palacetes e casarões arruinados e disse que o passado não era menos decadente que o presente. Quando falou das frutas, tentei ajudá-lo a pronunciar palavras difíceis para um asiático. Elegemos, sem discórdia, a melhor de todas: o bacuri.

"Talvez uma das mais saborosas do mundo", disse o mestre butô num inglês razoável.

Me despedi de Takashi e dos atores, entrei na voadeira, atravessei o Guamá e atraquei no porto de Santa Isabel. Estava hospedado no Reduto, coração da cidade. Por volta das 11 da noite, fui ao único bar de Belém em que a melodia e o ritmo do carimbó ainda não haviam excluído o banjo, a flauta e os maracás. Alguém na penumbra acenou para mim. Era o mestre butô, que também queria ouvir o carimbó tradicional.

Notei que os sons do batuque, do clarinete e do saxofone levavam Takashi ao êxtase, tal como o jambu que ele comera no restaurante. Para minha surpresa, ele perguntou se eu não queria provar cachaça de "shampoo". Tomei uma golada que me fez perder o fôlego e deixou um travo amargo na língua queimada.

O mestre riu, animadíssimo: "Não é uma bebida maravilhosa?"

Depois, começou a falar sobre montanhas, rios e árvores de seu país, em cuja região central havia macaquinhos que entravam num lago frio e saíam pulando, como fazem os humanos.

"Ontem, me lembrei desses macacos do Japão", disse Takashi. "Eu observava uma árvore imensa no museu Goeldi, quando uns macaquinhos caíram nos meus ombros".

Bebeu mais gole de cachaça e me olhou com um ar nostálgico.

"Grandes dançarinos", prosseguiu o mestre butô, como se falasse para si mesmo. "Eram atores incríveis... A vida era a própria dança... Eles expressavam em silêncio todos os sentimentos humanos".

O que faz a cachaça de jambu, pensei. Mas eu estava equivocado: Takashi referia-se à amiga Pina Bausch e a Kazuo Ohno, o grande mestre butô.

Lá pelas tantas, ele dançou carimbó com uma cabocla e não demorou a pegar o ritmo. Só de vê-los dançar, fiquei exausto. Quando os músicos silenciaram, andamos até a Estação das Docas e paramos no porto. Já amanhecia quando Takashi ficou de frente para a baía do Guamá, olhando o céu avermelhado e a água ainda escura do rio. Tirou a camisa e os sapatos e deu uns passos curtos e ágeis, movendo as mãos com gestos rápidos, como se fosse um mágico. Enquanto dançava ou encenava, o rosto mudava sutilmente de expressão. Juntou gente para ver a performance do mestre butô: pescadores que tinham chegado da Cachoeira do Arari, peixeiros do Ver-O-Peso, mulheres que vendiam amuletos e temperos, e tantas pessoas erradias dessa cidade que Mário de Andrade quis como se quer um amor: "o inconcebível amor" que Belém despertou no escritor paulista.

Quando o mestre parou de dançar, fez um gesto de saudação ao sol, ao Guamá e à plateia, deu adeus a todos e sumiu entre os quiosques do mercado.

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