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Um mero sonho?

A despeito de sua vida pobre, amarga e sofrida – concluía titia – ele não abdicava dos seus sonhos

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 03h00

Estava tomando banho de mar com todos os meus filhos, noras, genros e netos numa praia de águas translúcidas cujo nervoso e incessante movimento ondulante lembrava as ondas de felicidade que tocavam o meu coração. Um sol de verão iluminava um interminável céu azul e a vegetação verde e florida da orla completava a areia imaculadamente branca da praia. 

Jamais vivi um dia tão lindo... disse a mim mesmo baixinho, pois só os suspiros e os arpejos do amor são adequados ao puro, ao bom, ao certo e ao belo que a voz de comando e as receitas sufocam.

Olhei para aquele precioso quadro e nele milagrosamente surgiram, bonitos e sorridentes, meus amados pais, meus primos-irmãos e os irmãos dos meus pais – meus venerados tios Marcelino, Silvio e Mario que tanto me ensinaram sobre a vida, o amor, a política e outros assuntos que os pais – por dever aos seus impositivos e difíceis papéis – não podem explicar aos seus filhos como eles gostariam. 

Um pouco mais longe, gozando da sombra de uma barraca de praia, meu avô e minha avó acenavam sorrindo, quando nossos olhos cheios de gratidão amorosa se encontravam, e eles revelavam nos seus rostos tranquilos o orgulho pela minha vida junto de todas aquelas vidas que deles nasceram e estavam novamente atreladas naquela manhã luminosa. 

Eu me sentia tão maravilhosamente feliz que a consciência da minha felicidade transformava dolorosas perdas, rivalidades execráveis e até mesmo enormes frustrações em meras passagens. Até mesmo a minha mediocridade sumia naquele dia solar e naquela praia mágica, docemente moldada pela alegria dos meus filhos e netos. Foi sentindo isso que, no sonho milagroso, eu via o filho perdido nadando risonho em minha direção. 

Mergulhei nas águas transparentes daquele mar e, placidamente, toquei a areia pura do seu fundo. Senti nas mãos a encantadora firmeza das areias douradas daquela praia e naquele dia de sol encantado. Quando cheguei à tona, oscilando como um peixe, vi a mulher e todas as musas da minha fantasia ao lado dos amigos de todas as etapas de minha vida. Majestosos, eles abençoavam a cena reafirmando a minha plenitude de homem decidido a ser humano. 

Achei estranho não sentir o incômodo de nenhuma perda ou preocupação. Percebia apenas a luminosidade da minha consciência, pois o mal do mundo não existia. E eu estava simplesmente encantado como um herói de um conto de fadas que tia Amália contava aos meus quatro irmãos, todos finados, e a mim; e ela e eles, eu me lembro, estavam igualmente risonhos naquela praia. Eles me diziam como a tia solteirona, contadora de contos, tudo aceitava e me amava.

Ao respirar o ar invisível da vida, atinei que eu – afinal – era menino, avô, pai, filho, marido, irmão, amigo, sobrinho, primo, neto, empregado, colega e professor de mim mesmo.

Nesse instante, os livros que mais amei vieram todos ao meu encontro. Eu me lembrava de tudo e finalmente equilibrava ignorância e saber. Recebendo a visita da harmonia eu ouvi e cantei, com o piano de mamãe, minhas músicas favoritas. Céu e terra se fundiam numa cópula serena e graciosa. Aquele dia de sol, luz, paz, saudade, aceitação e praia era real. Um real permeado de imensa felicidade.

Ajoelhei e chorei.

Pensei: esse é o sonho da minha morte e me lembrei de uma história contada por titia. 

Zombavam, rezava a lenda, de um velho que lia muito trancafiado na sua cela. É um prisioneiro, zombavam. No entanto, ele ia a todos os lugares e discutia com magos e malandros, lutava com piratas e convivia com selvagens amazônicos, políticos mentirosos e invejosos aristocratas. Era agraciado por reis e recebia beijos ternos e molhados de fadas sequiosas de amor... A despeito de sua vida pobre, amarga e sofrida – concluía titia – ele não abdicava dos seus sonhos. Havia, entretanto, como sempre há, um senão: ele sabia tudo, mas a vida o impedia de conhecer a morte.

Antes de morrer, porém, um generoso Aladim, saído de sua claustrofóbica lâmpada maravilhosa, falou: no instante da morte, a pessoa vê tudo o que lhe aconteceu. 

O velho, conta o conto, compartilhou o segredo com Celso Hopefield, seu amigo mais antigo, e ele a tudo isso somou mais uma fantasia. “É verdade – disse –, mas há um segredo: na hora exata da morte, quando ela chega como um doce sono que antecipa o frescor repousante do nada, vivemos o momento mais feliz de toda a nossa vida. Mas isso é um sagrado segredo do segredo, peço que não o conte a ninguém...

Ao viver a minha feliz manhã de praia, lembrei: o Celso será o primeiro a saber desse momento no qual encontrei a plenitude da minha vida. 

Ao pensar nisso, contudo, descobri que havia morrido. E que esse precioso segredo vai estar aprisionado nas páginas de um jornal que, amanhã, embrulhará um peixe. 

*

PS: Psicografado e alterado por Roberto.

É HISTORIADOR E ANTROPÓLOGO SOCIAL, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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