Um mergulho no mundo do poeta Paulo Leminski

Sem citações ou episódios biográficos, a peça Vida retoma legado do escritor

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2010 | 00h00

Logo de saída, Marcio Abreu já sabia muita coisa. Sabia que seu novo espetáculo não iria falar de Paulo Leminski, nem sobre ele. Também tinha certeza que não pretendia adaptar um livro que ele tivesse escrito nem tampouco apresentar trechos de seus poemas. "Não queria nada disso", diz o diretor. "O que eu queria mesmo era conversar com Leminski."

Quem já viu Vida geralmente não consegue explicar exatamente por que, mas costuma sair tomado por essa sensação: a de ter assistido a um encontro. Desde sua estreia, no Festival de Curitiba em março deste ano, a peça da Companhia Brasileira de Teatro tem chamado a atenção pelo diálogo, nada direto e estranhamente contundente, que conseguiu estabelecer com o universo do escritor paranaense.

A montagem, que inicia uma curta temporada paulistana amanhã no Sesc Santana, coloca o público diante de um cenário cuidadosamente pensado para ser vazio, um "anticenário" nas palavras do encenador, e de um enredo muito tênue. Quatro integrantes de uma banda ensaiam para as comemorações do jubileu de uma cidade. Quase banal, a história parece se colocar só como pretexto. E é, garante Abreu. "Para mim, os enredos são sempre pretextos. O que não quer dizer, de forma alguma, que sejam desimportantes. Neste caso, o encontro desses personagens com essa finalidade prosaica realmente condensa algumas questões importantes: a relação com a cidade, o exílio, o deslocamento, a convivência com as diferenças."

No palco, os atores Rodrigo Ferrarini, Ranieri Gonzalez, Nadja Naira e Giovana Soar não se colocam na pele de um outro, mas se postam diante da plateia com seus próprios nomes, como se seus personagens fossem de uma natureza muito peculiar, concebidos no limiar entre o ficcional e o real.

Mergulho. Dessa fricção, não deve surgir a evocação de um único episódio biográfico de Leminski, mas ecos do mergulho que fizeram no seu universo: sua obsessão pela linguagem, a relação com o movimento concretista, a ponte constante que erguia entre o erudito e o popular.

Já no trabalho anterior, O Que Eu Gostaria de Dizer, a curitibana Companhia Brasileira de Teatro assinalava seu desejo de construir uma dramaturgia própria. Assinado por Abreu, com a colaboração das atrizes, o texto de Vida é resultado de um longo processo de pesquisa e sublinha esse percurso autoral.

Para construí-lo, o grupo foi beber não só na obra poética de Leminski como também em outras de suas facetas, como o seu trabalho de tradutor de grandes autores da literatura moderna, como James Joyce e Samuel Beckett. "Estabelecemos com ele uma relação da natureza da afetação", lembra Abreu. "De deixar afetar-se por uma obra, um pensamento, uma visão de mundo."

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