Um mercado em silêncio

Sem editoras, compositores contemporâneos sofrem para preservar e divulgar suas partituras

BOLÍVAR TORRES , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2012 | 03h09

Visitas a correios e casas de xerox viraram rotina na carreira de Edmundo Villani-Cortes. O compositor mineiro perdeu a conta de quantas cópias de partituras de suas músicas já enviou, só nesta semana, para conhecidos e desconhecidos do mundo inteiro. Em geral, são pedidos de admiradores - profissionais ou amadores - que querem tocar suas obras, mas não encontram as partituras em lugar algum. Com a falta de edições e espaços de divulgação, boa parte do tempo em que deveria estar se concentrando em novas composições é gasto na tentativa de semear e resguardar a sua música. "É um trabalho de formiguinha", conta Villani-Cortes. "Você vai de grão em grão. Tira cópia, corrige, envia... Agora mesmo acabei de enviar a partitura de meu concerto para flauta e orquestra a uma senhora que encontrei durante um projeto musical em Paquetá. Ela disse que gosta da minha música, mas não acha a partitura."

Algumas décadas atrás, compositores como Villani-Cortes não gastavam tanta energia divulgando suas próprias obras. Vão longe os tempos em que quase toda criança estudava um instrumento musical e em que a edição de partituras individuais, com uma obra avulsa, ainda era lucrativa. "Até a década de 50, o compositor compunha e a editora editava, lançava e divulgava", lembra Villani-Cortes. "Hoje, como as editoras deixaram de fazer este trabalho, o compositor se desdobra: precisa compor, corrigir, editar, divulgar..."

No Brasil, contudo, a comercialização de partituras não deixou de existir completamente - e isso graças às coletâneas, que reúnem até 50 músicas por edição. Segundo Fernando Vitale, da Irmãos Vitale, uma das principais editoras de música do País, as vendas de coletâneas não diminuíram nos últimos anos. "É verdade que as vendas das partituras avulsas, que trazem apenas uma obra, caíram muito, já que os custos de edição e distribuição não compensam", avalia. "Por outro lado, lançar coletâneas faz sentido comercialmente. Você consegue oferecer diversas músicas por um preço exequível."

O problema é que, ao apostar na política do "Best of", as coletâneas deixam de fora as obras e compositores mais raros, que acabam caindo no esquecimento. Estes continuam sendo obrigados a recorrer ao xerox e aos correios. Mas até mesmo a música de compositores famosos do passado sofre com a escassez de partituras. "Estive à frente de projetos que iriam fazer apresentações de obras, e o acesso às partituras era dificílimo, inclusive de compositores famosos, como José Maurício Nunes Garcia", lembra a cravista Rosana Lazelotte. "Tocava-se a partir de manuscritos, cópias de xerox, arquivos de orquestras em situação calamitosa. No Ano do Brasil na França, as orquestras francesas não tinham possibilidade de tocar nossos compositores, diante da inexistência de material."

Para o gaitista e pesquisador musical José Staneck, a crise das partituras tem origem na política das próprias editoras. "Como estavam acostumadas com o baixo faturamento das partituras, elas priorizaram o mercado de gravações", explica. "O problema é que assim se cria um círculo vicioso, já que, tirando de circulação as partituras, não tem mais como tocar. E, sem tocar, não tem como gravar. Depois de 15 anos sem circulação de partituras, chegou a um ponto em que não se encontra mais material com facilidade, tanto de compositores contemporâneos quanto os mais antigos. Há menos difusão e, com isso, menos gravação. Já passei vexames com músicos estrangeiro por causa da falta de partituras."

A música erudita é, claro, diferente da música popular, que pode ser passada oralmente ou tirada de ouvido de uma gravação. As indicações do compositor exigem ser preservadas. "Precisa da partitura para que a música erudita continue viva", resume Staneck. "Cortou isso, acabou a música."

Os músicos também colocam parte da responsabilidade nas orquestras sinfônicas nacionais. "Pergunta se elas pagam aluguel de partituras de autores brasileiros. Não pagam, não querem pagar", lembra Staneck. Para completar o círculo vicioso, a crise das partituras acaba se refletindo no repertório pobre e previsível escolhido pelos maestros. A maioria deles, segundo Villani-Cortes, prefere programar compositores do passado, cujo material - pelo menos os dos mais famosos - já está organizado pelas editoras. "São poucos os maestros que se interessam em programar os mais recentes", lamenta. "As orquestras se acomodaram, priorizam aquelas coisas tradicionais, por causa do fácil acesso."

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