Um menino e seu sonho de liberdade

Ópera de Ronaldo Miranda e Jorge Coli a partir de texto de Paulo Bonfim tem estreia mundial no Teatro São Pedro

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2013 | 02h13

O que é ser livre? É com esta pergunta simples de resposta complicada que o menino muda a rotina dos passageiros de uma lotação no centro de São Paulo. A cena é narrada em uma crônica do escritor Paulo Bonfim. E agora chega ao palco do Teatro São Pedro em forma de ópera do compositor Ronaldo Miranda com libreto de Jorge Coli, que tem sua estreia mundial hoje e mais duas récitas, amanhã e domingo.

Estreias de novas óperas por compositores brasileiros são raras - mas Miranda é sem dúvida especialista no assunto. O Menino e a Liberdade é seu terceiro trabalho no gênero. Em 1992, estreou Dom Casmurro, no Municipal de São Paulo; e, em 2006, A Tempestade, também no Teatro São Pedro.

Tanto na adaptação do texto de Machado de Assis quanto na versão para a peça de Shakespeare, Miranda trabalhou com espetáculos de grandes proporções. Aqui, no entanto, sua obra terá apenas um ato, de pouco mais de quarenta minutos.

Para o compositor, porém, a diferenças entre as três obras vão muito além da simples duração. "Dom Casmurro tem três atos. A Tempestade, dois, e foi difícil condensar a enorme peça shakespeariana. Casmurro conta uma história de amor eloquente, tem um triângulo amoroso e um final sombrio. A Tempestade é mais feérica e leve, mas também alterna comédia e drama. Já O Menino e a Liberdade é uma fábula humana sobre o que significa ser livre: é um verdadeiro 'achado' do Paulo Bonfim, que Jorge Coli soube desenvolver com um belo texto e com sua paixão pela ópera, o que lhe permitiu intuir o que seria possível de ser musicado."

Miranda conta que foi justamente o trabalho de Coli que lhe fez acreditar na possibilidade de escrever uma ópera sobre o tema. Quando foi procurado pela empresária Bea Esteve com a ideia, diz ter ficado "inseguro" com a possibilidade de transformar o texto original em música. "Fiquei impressionado com a habilidade com que Coli transformou um conto de uma página e meia num libreto. Ele se ateve ao início e ao fim do conto, acrescentando no meio a apresentação de quatro personagens da história - a moça, o rapaz, a mãe e o chofer. Aí a imaginação do libretista criou asas e gerou um mundo onírico para cada um deles", diz.

O compositor diz que escrever ópera em português é tarefa interessante - e, assim, joga para escanteio a noção de que a língua e o canto lírico não se entendem direito. "Gosto muito de compor em língua portuguesa, seja música dramática, sejam canções. Já musiquei grandes poetas e tenho também especial predileção por Fernando Pessoa, de quem me atrevi a musicar vários poemas para coro. Em relação ao texto de O Menino e a Liberdade, foi tarefa agradabilíssima, para mim, transformá-lo em música."

Com três óperas no currículo, Miranda chama a atenção para um paradoxo com relação ao mercado brasileiro quando perguntado sobre o papel que o gênero tem em sua carreira. "Não sei dizer se o gênero adquiriu maior importância na minha carreira como autor. Nunca consegui que qualquer teatro de ópera brasileiro remontasse Dom Casmurro ou A Tempestade. É mais fácil receber a encomenda de uma nova ópera do que ter uma ópera já composta reencenada.

À frente da Orquestra Sinfônica do Teatro São Pedro estará o maestro Roberto Duarte e a direção cênica é de Mauro Wrona. Hoje e domingo, o elenco é formado por Luciana Bueno, Inácio de Nonno, Flávio Leite e Caroline de Comi; amanhã, atuam os cantores da academia do São Pedro: Josy Santos, Johnny França, Anibal Mancini e Chiara Santoro. Sebastião Teixeira, como o Senhor Distinto, e Ivan Marinho, no papel do Menino, cantam nas três récitas.

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