Um médico curandeiro no interior de minas

Misterioso personagem, vivido por Selton Mello, é o destaque de A Cura

Patrícia Villalba / RIO, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2010 | 00h00

Bastidores. Para o papel do ator, João Emanuel Carneiro inspirou-se nos mistérios mineiros

 

 

Como o pequeno Guimarães Rosa, que recolheu a base para suas futuras histórias enquanto brincava embaixo do balcão da mercearia do pai, em Cordisburgo, o menino João Emanuel Carneiro absorveu a atmosfera misteriosa de Minas nas andanças que fez com a mãe a antropóloga Lélia Coelho Frota (1938-2010), quando ela presidiu o Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), nos anos 80. "Ela despachava em um daqueles casarões e eu ficava desenhando do lado", lembra o autor, que encontrou o Estado numa livraria do Leblon.

É por isso que A Cura, seriado de nove capítulos que estreia no dia 10 sob direção geral de Ricardo Waddington, é ambientado na cidade histórica de Diamantina. Envolvido na morte de um amigo de infância aos 11 anos, Dimas (Selton Mello) volta à cidade aos 30, depois de se formar como médico e de também de passar alguns anos em hospitais psiquiátricos. "Ele começa a trabalhar no hospital da cidade, mas não querem que ele opere, ninguém quer que ele segure um bisturi", adianta o autor, que define o seriado como um thriller, no estilo dos americanos Medium e Ghost Whisperer. "Ele vai descobrir que tem poderes de cura. É um médico curandeiro."

Se Diamantina está na sua memória afetiva, quando você começou a pensar em contar uma história na cidade?

Primeiro, veio a ideia do curandeiro que pode ser assassino, depois veio Minas e, daí, pensei em qual cidade mineira que eu mais gosto - por isso Diamantina. O fato de ela ser mais isolada do que as outras cidades histórias ajuda no enredo. Quando vejo que já deu um baião de dois, começo a desenvolver a história.

Mas por que Minas, especificamente?

Porque é uma terra de segredos escondidos, e a história gira em torno da ambiguidade do Dimas. Uma coisa que andei pesquisando sobre Diamantina, mas que não está na história, é o porquê do mineiro ser desconfiado. Num dos períodos da mineração, os donos de garimpo tinham de depositar os diamantes da caixa forte do governo. Quem denunciasse o vizinho que não estava declarando, ficava com metade das pedras dele. A desconfiança do mineiro está muito ligada à mineração.

Como surgiu o projeto?

Foi uma encomenda do (diretor artístico) Manoel Martins, que me pediu um seriado. Sempre quis fazer uma história sobre curandeiro, porque é uma forma de abordar o sobrenatural de uma forma bem brasileira. Acho que falta na ficção brasileira audiovisual essa vertente do fantástico, que é muito pouco explorada.

E como você define A Cura? A série se aproxima do realismo fantástico?

Não. O que estou fazendo é um thriller psicológico de terror mesmo. É um pouco diferente daquela alegoria poética do realismo fantástico. É hiper-realista com esse dado do fantástico.

A história é contínua como a de minissérie, mas os capítulos vão ao ar uma vez por semana. Por que esse formato?

É uma coisa nova na Globo. Tenho muita curiosidade de saber como o público da TV aberta vai reagir. Você acha que se gostarem, vão querer esperar uma semana para saber o que vai acontecer, se gostarem?

Acho que sim.

É uma questão interessante. Vamos ver. Demorei para pegar essa cultura de seriado, e fiquei viciado. E é engraçado, porque às vezes quando termina um filme de duas horas você pensa que gostaria de continuar naquele universo, com aqueles personagens. E o seriado te dá isso. Gosto desse tempo dos seriados.

É mais confortável escrever seriado do que novela?

Qualquer coisa é mais confortável do que escrever novela - lavar esse restaurante aqui (risos). Acho que só controle aéreo - só temo mais o Cindacta do que escrever novela. É uma experiência de pressão e nervosismo tão limite que depois qualquer outra coisa é mais tranquila.

É que em A Favorita você foi bastante massacrado, não?

Massacrado! Tem uma coisa curiosa: quando chega alguém novo nesse circuito de autor das 21h, a imprensa e todo mundo vão em cima. Deve ser parecido com a política, que resiste ao novo. E o sistema acaba conspirando para isso.

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