Ique Esteves/Divulgação
Ique Esteves/Divulgação

Um marginal assumido

Homenageado no Rio, Skolimowski fala de seu filme Essencial Killing e do ator Vincent Gallo

Luiz Carlos Merten / RIO, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

Jerzy Skolimowski conhecia socialmente Vincent Gallo de alguns encontros em Hollywood, mas nunca pensou nele como ator de um roteiro que havia acabado de escrever, Essential Killing. No Festival de Cannes do ano passado, Skolimowski foi ver Tetro, de Francis Ford Coppola, que passa na seção Quinzena dos Realizadores. Foi quando ele viu Gallo fazer determinado movimento. Achou-o "animalesco". Skolimowski se aproximou de Gallo, disse que gostaria de lhe enviar um roteiro. O ator pediu que enviasse naquele mesmo dia. Duas horas depois de deixar o roteiro na recepção do hotel, ainda em Cannes, Skolimowski recebeu um chamado de Gallo. Ele lhe disse - "Eu preciso fazer este filme. Estou preparado, física e psicologicamente. Quando começamos?"

Essential Killing foi rodado no inverno europeu, sob condições rigorosas. Para Vincent Gallo, foi uma tortura - mal agasalhado, pelas exigências do papel, ele tinha de correr descalço na neve, mergulhar em águas geladas. De alguma forma, o ator repassou a tortura para o diretor. Skolimowski não se lembra de experiência mais difícil. Valeu a pena para ambos. Skolimowski ganhou um prêmio especial, o do júri, e Gallo foi melhor ator no recente Festival de Veneza. O cineasta está no Rio, onde recebe a homenagem do festival. Na sexta à noite, na apresentação de Essencial Killing, foi definido pela diretora artística do evento, Hilda Santiago, como "um ícone do cinema".

Ele é. Skolimowski pertence à geração de Roman Polanski no cinema polonês. Ele colaborou no roteiro do primeiro longa do amigo - A Faca na Água. A mulher de Polanski, Emmanuelle Seigner, é atriz em Essential Killing. "Conheço Emmanuelle desde que se uniu a Roman. Sempre nos prometíamos filmar juntos. Surgiu esse papel que ela poderia fazer muito bem. Mas ocorreu toda aquela situação com Roman e eu até comecei a procurar outra atriz. Emmanuelle me tranquilizou. Disse que queria fazer o filme. Seria uma maneira de fugir da confusão."

O filme é sobre um afegão, prisioneiro do Exército norte-americano. O carro que o transporta sofre um acidente, ele foge e inicia uma corrida louca, algemado e perseguido por cães e soldados. Vai parar na casa de Emmanuelle. Ela o acolhe, trata de suas feridas, um gesto de solidariedade. "Não sei se é a melhor palavra, é mais compaixão", explica Skolimowski. Ele conversou sobre isso com seus atores? "Não, mas eles fizeram a cena como eu queria." Para Skolimowski, Essential Killing não é sobre política. Interessou-o a situação-limite, o homem acuado.

Ele conta como o projeto surgiu. "Moro na Polônia, longe da cidade, na mata. Havia feito meu filme anterior, Quatro Noites com Ana, na minha vizinhança, ao redor de casa. Foi uma filmagem tranquila, queria mudar. Ali perto há uma base norte-americana, para onde o Exército leva prisioneiros do Afeganistão. Uma noite, o carro desgovernou e eu quase rolei pela ribanceira. O filme nasceu naquele momento. "Vi" o acidente com o carro-forte do Exército e o prisioneiro algemado que fugia. Tudo me veio num flash, mas o filme já surgiu inteiro."

Autoral. O próprio Skolimowski produziu Essential Killing. "É a melhor maneira de evitar desperdício. Como produtor, sei o que vou poder gastar como diretor." Ele filmou as cenas que supostamente se passam no Afeganistão num cânion em Israel. As dificuldades começaram na floresta polonesa, debaixo de neve. São águas passadas. Skolimowski está muito feliz com seus dois filmes mais recentes (Ana e Essencial Killing). Acha que o reatam com seu cinema mais autoral. Nos anos 1960, ele foi chamado de "Godard polonês". A etiqueta o incomodava? "Não, pois eu era mesmo o mais nouvelle vague dos diretores da minha geração e Jean-Luc (Godard) era uma referência." Encontraram-se num festival nos EUA, Godard foi muito simpático com ele.

"Quando os críticos caíram matando no meu filme, me enviou uma carta. Disse que não ligasse, que eram burros, não haviam entendido nada." A situação de Skolimowski tornou-se insustentável na Polônia quando fez um filme radicalmente antistalinista, Hands Up! Ele abandonou o país e foi fazer filmes na França (Le Départ) e na Inglaterra (o genial Deep End/Ato Final). Arrepende-se de algumas coisas que fez (as adaptações de Conan Doyle e Vladimir Nabokov, entre outros escritores). "Sou melhor quando escrevo minhas histórias", admite, sem modéstia. Dividindo-se entre os filmes e a pintura ("Vendo bem para museus e colecionadores"), reconhece que é um marginal do cinema. Mas afirma, rindo - "Vincent Gallo é mais marginal que eu."J

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.