Um mapa desigual da ficção

Antologia organizada na França exclui brasileiros e tem cubanos como destaque

WILSON ALVES-BEZERRA, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

As antologias, como as listas em geral, costumam ser reveladoras. Quem se dedica ao exercício da seleção necessariamente abre mão da volúpia da totalidade, mas paga o tributo de explicitar os critérios de seu parcial mapeamento. É um exercício crítico interessante e polêmico por definição. Les Bonnes Nouvelles de l"Amérique Latine, recém-lançada antologia de contos latino-americanos publicada pela francesa Gallimard, revisita esses tópicos. O primeiro critério de seleção explicitado pelos organizadores Gustavo Guerrero e Fernando Iwasaki foi o cronológico. Todos os autores são nascidos após 1960 e publicaram ao menos uma coletânea de contos. Esse critério exclui, portanto, escritores como o chileno Roberto Bolaño (1953- 2003), o mexicano Juan Villoro (1956-) e o argentino Alan Pauls (1959-), ao tempo em que, por oposição, mostra que os mais jovens são os que não atingiram ainda a consagração pública, daí o qualificativo de "boas novas" que lhes é atribuído.

A forçosa juventude dos 32 participantes, entre 30 e 50 anos, torna-os quase todos anônimos para os brasileiros. Exceções são o colombiano Juan Gabriel Vázquez, cujo livro Os Informantes foi traduzido no Brasil em 2010 pela L± Rodrigo Fresán, de quem as referências pop de Jardins de Kensington estão disponíveis desde 2007, pela Conrad; e o também argentino Andrés Neuman, que chega ao País este ano, pela Objetiva com o premiado Os Viajantes do Século.

Pode-se apontar inquietantes omissões, como a ausência de qualquer um dos jovens escritores argentinos que figuram na recém-lançada antologia Os Outros. Narrativa Argentina Contemporânea, organizada por Luis Gusmán (Iluminuras, 2010). Causa também estranheza a ausência de brasileiros nesta antologia latino-americana. Certamente, a grata surpresa são os cubanos: Antonio José Ponte, autor de um dos melhores contos do livro, A Pedido de Oxum, faz um cruzamento entre a tradição africana e a cultura chinesa através de uma fábula contada num açougue do Bairro Chinês de Cuba; Ronaldo Méndez reescreve de modo magistral o conto A Carne, de Virgilio Piñera, em novo pesadelo de devoração; e Ena Lucía Portela, em Furacão, mostra-se autora promissora, ao alcançar uma visão crítica sobre o regime cubano sem incorrer no panfleto.

Não há unidade estética entre os textos selecionados; a marca é a diversidade e os relatos são desiguais. Todos os mapas comportam certa equivocidade - como a América Latina sem o Brasil- mas a nos guiarmos pelo mapa proposto por esta antologia, certamente Cuba é um destino promissor.

WILSON ALVES-BEZERRA É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS E TRADUTOR

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