Um mamute sensível e difícil de esquecer

Um mamute sensível e difícil de esquecer

Gerard Depardieu interpreta com carinho um aposentado que evoluiu da brutalidade à ternura

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2011 | 00h00

Gérard Depardieu está de fato um ogro no papel de Serge, anti-herói de Mamute, dos belgas Gustave Kervern e Benoît Delépine. Mas, quem se importa se, de qualquer jeito, ele esbanja tanto talento e charme? Depardieu, aliás, está em outros dois filmes em cartaz na cidade: Minhas Tardes com Margueritte e Potiche. Com este são três, como a provar que, para um ator de verdade, a boa forma física, a idade e o rosto convencional são figuras dispensáveis.

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Aliás, fosse ele um tipo convencional e não poderia interpretar esse personagem. Serge Pilardosse trabalha num matadouro e passa o dia a preparar carnes de porco. Entre um pernil e um presunto, vai levando a vida, e muito bem. Até que chega o dia da aposentadoria e, adeus. Serge ganha uma festinha convencional e leva para casa um quebra-cabeças gigante, desses de duas mil peças, como presente de despedida. Tem 60 anos e uma vida de aposentado pela frente.

Isto é, se conseguir se aposentar de modo digno, pois para isso terá de provar vínculos empregatícios passados. Serge vive com sua mulher (Yolande Moreau), que trabalha de caixa num supermercado e não suporta o emprego. Será ela a estimular Serge a pegar sua antiga moto e sair a campo em busca dos comprovantes de antigos empregos. Difíceis de obter, como ele descobrirá, mesmo porque trabalhou a maior parte do tempo de maneira informal. A moto em que viaja é uma ancestral Munch Mamuth, de 1973, o que pode sugerir o título do filme. Mas mamute é ele mesmo, Serge, e nem tanto a moto.

Por aí vemos como a história se conduz a um típico filme de estrada, com essa estranha figura - obesa e cabeluda - a dirigir uma raridade sobre duas rodas pelas vias do interior francês.

O que torna Mamute original é que a viagem de Serge se dá tanto no plano real como no imaginário. Por exemplo, ele é visitado por um amor do passado, "o" grande amor, na verdade, personificado na doce figura de Isabelle Adjani. A história não diz, mas o espectador pode deduzir que esse amor deve ter acabado de maneira trágica. De qualquer, forma, é um fantasma do passado que assola (ou às vezes consola) o pobre Serge em suas andanças.

O filme flerta tanta com a fantasia quanto com o absurdo e chega às vezes a testar os limites do grotesco, como no encontro de Serge com um primo, que foi seu companheiro de brincadeiras na infância. Faz contato também com uma mulher belíssima (Anna Mouglalis, de Gainsbourg), porém ferida num acidente de moto. E com uma sobrinha (a exótica Miss Ming) cuja mente é, digamos assim, pouco convencional, e com quem ele entretém uma relação ambígua e levemente erotizada.

Em poucas palavras, Mamute é um filme de estrada que, como tantos outros, trata da construção de si do personagem por meio do movimento e pela visita aos fantasmas do passado. Ao chegar à assim chamada "melhor idade", Serge pouco tem a escavar de sua biografia para se consolar e encarar os anos que virão. Nada fez de grandioso, nem, em aparência, aprendeu muita coisa. Fez pequenos serviços, aqui e ali. E foi levando. Em busca dos seus comprovantes de emprego, terá oportunidade de confrontar-se com sua vida anterior, com quem ele foi e quem pode ser daqui para frente. Parece familiar? Parece. Mas a maneira como os diretores belgas contam essa história manjada é tudo menos convencional.

Mamute visita temas já percorridos, como o impiedoso mundo do trabalho, a solidão no limiar da velhice, a falta de apoio ao aposentado, a sexualidade na terceira idade etc. Mas o faz de maneira original e marcante, num tipo de filme que depende demais do carisma do ator para se manter em pé. Depardieu, com seu corpo de urso, juba de leão e uma mente que evoluiu da brutalidade à ternura, compõe um tipo difícil de esquecer.

MAMUTE

Direção: Benoît Delépine e Gustave Kervern. Gênero: Comédia (França/ 2010, 92 min.).

Censura: 14 anos.

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