Um mago do piano hipnotiza as plateias

Crítico

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2010 | 00h00

A peça virtuosística ideal é aquela que soa mais difícil do que de fato é. A frase do arguto dublê de pianista e musicólogo Charles Rosen em Piano Notes aplica-se com perfeição ao recital do pianista húngaro Dezsö Ranki, que abriu anteontem, na Sala São Paulo, a temporada 2010 da Sociedade de Cultura Artística. Esta é a maior virtude do mago virtuose para hipnotizar suas plateias - hábito implantado por Franz Liszt em meados do século 19 e que goza de espantosa longevidade.

As três peças do programa constituíram a história do nascimento e consolidação do instrumento, desde o fim do século 18, em que, como diz Rosen, "tocava-se por prazer ou para a educação do intérprete, fosse ele amador ou profissional". Sessenta anos depois, a música para piano virou coisa de profissionais.

Haydn escreveu pouco menos de 60 sonatas para teclado (primeiro destinadas ao cravo, depois ao pianoforte). A que Ranki executou no estilo "macho man" pertence ao bloco das três últimas, que ele escreveu em Londres, entre 1791 e 1794. Soa incrivelmente ampla e não apenas prefigura, como se ombreia às sonatas do período mediano de Beethoven. E por um motivo simples: em Londres, Haydn encontrou pianofortes bem mais robustos que os leves instrumentos vienenses.

O ideal romântico. A "Fantasia" e a "Sonata em si menor" colocam outra questão. Schumann ou Liszt? Qual deles encarnou melhor o ideal romântico? A história de Schumann é a do artista de gênio que se desnuda diante de um mundo que não o compreende, afirma sua diferença e finalmente destrói-se por não suportar as dores deste mundo. "O que os homens não podem me dar", escreve em seu diário, "a música me dá; os elevados sentimentos que não consigo traduzir, o piano os diz para mim". Possuía tanta consciência de que sua vida espelhava-se em sua arte que, a um amigo que reclamou por não escrever-lhe, respondeu: "Mas você pode ficar sabendo de tudo que me aconteceu se ouvir minhas composições."

Por isso, e embora a "Fantasia" seja uma sonata mascarada, para entendê-la é preciso levar em conta sua condição de "diário sonoro" do compositor. Sobre o primeiro movimento, diz a sua amada Clara: "Você só pode compreender a "Fantasia" evocando o doloroso verão de 1836 onde renunciei a ti."

Menos músculos. Em Haydn - como, aliás, também em Schumann -, Ranki pareceu sempre tocar um pouco mais forte e pesado do que as partituras indicam, o que lhe criou problemas, sobretudo na "Fantasia", que exige mais sutileza e menos músculos. Rosen corretamente observa que tocar piano é praticar um esporte, ou seja, exige um esforço físico que dá prazer ao próprio intérprete em ação. Neste sentido, Ranki é exemplar. Mas isso não basta.

Tecnicamente perfeito, pareceu reencarnar Liszt na portentosa Sonata em si menor. Embora não exiba fisicamente a figura do superstar, atende pianisticamente ao clima sobre-humano que Liszt propõe, com vertiginosas oitavas duplas e prestos impossíveis.

Na performance mais arrebatadora da noite, mostrou que em Liszt o virtuosismo técnico é inseparável da criação musical. Hoje, enxergamos esta gigantesca e genial sonata como obra-prima acabada. Fragmentada em 12 movimentos interligados, aponta para o futuro e é tecida numa linguagem pianística dificílima - e aí está sua modernidade. É evidente que em seu tempo Liszt fracassou na tentativa de virada da carreira. Depois de conquistar a Europa entre 1839 e 1847, com uma média anual de mais de 100 recitais, apresentando-se sozinho, ele e seu piano, ou melhor, como dizia Heine, "ele e seu gênio", Liszt queria ser respeitado como compositor.

Mas os críticos o celebravam apenas como pianista soberbo, talentosíssimo improvisador e emérito arranjador. Por tudo isso, Liszt fazia questão de tocar a Sonata em si menor com a partitura à sua frente, para evidenciar que suas composições eram seriamente pensadas, e que já passara o tempo dos fogos de artifício improvisados nos recitais. Ranki demonstrou, de modo notável, que a criação musical em Liszt não sobrevive sem uma escrita tecnicamente superlativa. E isso definitivamente não é pouco.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.