Um longo caminho para dançar

Aos cinco anos, SPCD traz novidades e enfrenta o desafio de forjar uma identidade

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2013 | 02h10

O lançamento de um programa de assinaturas e o anúncio da temporada de 2013 marcaram os cinco anos da São Paulo Cia. de Dança. Criado em 2008, com a finalidade de ser uma companhia de repertório, o corpo de baile tem algumas conquistas importantes para exibir ao longo do período. Seu público mais do que dobrou - passou de 19.689 em 2008 para 49.188 no ano passado. Cresceu consideravelmente também o número de apresentações, foram 39 em seu ano de estreia e 79 em 2012.

A despeito dos avanços, porém, a SPCD ainda tem algumas lacunas a suprir. Com entrega prometida para 2010, o Complexo Cultural da Luz - sua sede definitiva - ainda não começou a ser construído. Orçado em R$ 300 milhões, o projeto do escritório suíço Herzog&DeMeuron aguarda o início das obras e sofreu algumas mudanças desde o seu lançamento: perdeu a biblioteca destinada a artes do espetáculo. Também foram abortados os planos para uma escola de dança no local. "A ideia da escola era apenas embrionária e o projeto do complexo continua caminhando", conta a diretora da SPCD, Inês Bogéa.

Em um país de minguados recursos para a dança, o grupo de São Paulo carrega a responsabilidade de ser a cia. pública com o maior volume nominal de recursos. Fato que a confronta, inevitavelmente, com o desafio de tornar-se um centro de referência. À época de sua criação, o então secretário de Estado da Cultura, João Sayad, falava em uma companhia de excelência "capaz de emular todo o campo da dança". Mas ainda é cedo para contabilizar seu impacto nos cenários local e nacional. "O que acontece principalmente são os diálogos. Cada vez mais a SPCD é ocupada por artistas de diferentes tendências e linguagens, e esses diálogos dos artistas fazem diferença na cidade. É um ponto de encontro para que se possa pensar um modelo brasileiro de dança, um modelo como o da SPCD, porque existem muitos outros", acredita Inês. "A gente procura a excelência em cada ação. Traz grandes nomes, coreógrafos e remontadores. Procura qualidade. Mas não sou eu que posso falar disso. As pessoas que veem o trabalho da companhia é que têm que dizer."

Outra questão com a qual o conjunto se defronta é a definição de uma identidade: traço do qual alguns críticos se ressentiram quando fizeram suas primeiras avaliações da SPCD. "Trata-se de uma companhia de repertório, o que é bem diferente de uma companhia de autor. Mas já dá para perceber uma identidade, sim. No início, era uma coisa indistinta mesmo. Mas, agora, já dá para ver um caminho. O olhar dos outros - coreógrafos, produtores, público - é um espelho no qual a gente pode se ver refletido", argumenta a diretora.

Para forjar essa identidade, o conjunto tem investido em criações nacionais: o programa Ateliê de Coreógrafos Brasileiros terá sua segunda edição com uma obra de Luiz Fernando Bongiovanni, com estreia prevista para junho, e um título de Ana Vitória Freire, que deve entrar em cartaz em dezembro. Outro traço evidente na grade anunciada para os próximos meses é a vontade do grupo de investigar mais detidamente o vocabulário de alguns criadores internacionais.

De Jirí Kylián a cia. já havia montado Sechs Tänze. Agora, o artista checo volta a ser visitado em Le Petite Mort, obra de execução técnica mais difícil que a primeira e também de tonalidade mais sombria. Também reaparece entre as escolhas o coreógrafo Nacho Duato, autor de Gnawa (2009) ele é o nome por trás de Por Vos Muero, que será montada em junho. "São novidades, sim. Mas que guardam essa memória do movimento. Para nos aprofundarmos um pouco em cada uma dessas linguagens que estão sendo propostas", diz Inês.

A retomada mais exemplar dessa temporada, contudo, é a de Marco Goecke. Responsável pela coreografia Supernova, que a cia. dançou em 2009, o coreógrafo alemão agora assina uma obra inédita para o conjunto paulista. Será também a primeira vez que a SPCD estreia no exterior: a première acontece no festival de Wolfsburg, que é coprodutor do trabalho, e chegará ao Brasil em junho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.