Um livro que li

Eu poderia, num trabalho jornalístico, saber mais detalhes sobre seu Luizinho. Mas prefiro ficar com a imagem que fiz

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

04 de maio de 2019 | 02h00

Seu Luizinho morreu. Não sabia o sobrenome. Nem a profissão. Desde que me mudei para o condomínio o via saudável, grisalho, aposentado. Aposentou-se cedo e tinha uma qualidade de vida invejável para a maioria dos aposentados brasileiros.

Tinha uma Harley-Davidson não muito chamativa. Por vezes, saía montado nela, como um rebelde sem causa. Não sei aonde ia. Um tempo depois, trocou por uma mais discreta, menor. Era flagrado na garagem limpando-a. Tinha todo o tempo do mundo...

Devia ter pouco mais de 70 anos quando morreu. Casado, com dois filhos e duas netinhas sempre de óculos escuros, branquinhas, com quem eventualmente ficava na piscina. Ele morava no quinto. 

Muitas vezes, subíamos o elevador juntos. Ele trazia pão francês, banido pelos nutricionistas, à base da “venenosa” farinha branca, frios e embutidos, banidos por clínicos, umas latinhas de cerveja e dois maços de cigarros, banidos por qualquer manual de medicina, de duas marcas diferentes: um para ele, outro para a mulher. Vida mansa...

Eu parara de fumar por obrigação, me sinto culpado toda vez que como um pão francês e tiro o miolo (a picanha do pão, dizem), não bebo em casa, fora de casa cada vez menos, e sempre traço uma guerra incansável contra a balança, inimiga persistente de cadeirantes, que danifica estética, autoestima e ombros.

Luizinho era amado por todos. No domingo, enquanto os veteranos jogam um futebol bonito de assistir e bem disputado na quadra com a garotada, ele ficava sossegado num banco. Nunca o vi jogar. Mas era um craque anos antes, dizem. Nunca faltou a uma partida. Era o amigão de todos. O mais querido. 

Tinha aquela risada gostosa, discreta, grave. Falava num tom de voz calmo. Nunca o vi afobado. Nunca o vi estressado. Nunca o vi reclamando, doente, mal-humorado, fechado, sempre sorria e amava meus filhos. Dava conselhos aos moradores que desabafavam em seus ouvidos confiáveis. Culto, leu de tudo, mas não se gabava.

Depois do futebol, todos costumam ir à lanchonete da piscina, pegam uma mesa grande e bebem cerveja e caipirinha por horas. A pinga mineira é um néctar. Sou presenteado sempre. O papo vai de futebol à política. Alguns assinantes do Estadão comentam minha coluna do dia anterior. Sei que a turma organiza pescas no Araguaia, até na Argentina. Luizinho ia junto, empolgado. A pescaria durava dias.

Numa ocasião, encostei na mesa, informei que não podia beber, pois tomava antibiótico. Como numa mesa-redonda futebolística, todos deram palpites: que não pode destilado, mas cerveja pode, que é lenda não misturar bebida com antibiótico, que não corta o efeito... 

Dei risada com seu Luizinho, o mais lúcido e sábio. Pois cada um tinha uma opinião diferente, e ficaríamos horas debatendo o enigma que intriga a civilização contemporânea: pode-se misturar álcool com antibiótico? Se, naquela mesa, cada um tinha uma opinião, imagine nos anais...

Um dia, seu Luizinho me provou uma das belezas da literatura. Solucionou outro enigma, o que intriga o mundo acadêmico: qual o papel da arte? Foi o maior elogio como profissional que recebi. Me disse, com os olhos brilhando: “Estou apaixonado pela sua mãe”. Minha mãe morrera. Ele se apaixonara pela personagem. 

Ela morou no bloco ao lado. Mudou-se no limiar do Alzheimer em 2006. Estava ainda lúcida, ficou rapidamente íntima do bairro e de todos, conquistou a gerência do banco, o povo da farmácia, da padoca, da banca, do ponto de táxi, os funcionários do prédio e os moradores, especialmente os mais velhos, quando se rebelou contra a mesa de truco que passava os finais de semana aos berros se xingando, desrespeitando famílias, crianças e idosos que almoçavam ao lado, com palavrões impublicáveis.

Ficou para as atas do condomínio o dia em que minha mãe mandou se calarem. Um jogador a ameaçou. Com que direito a senhora quer impedir nossa jogatina? Ele não sabia com quem se metia: a mulher que enfrentou destemida um levante militar e dormiu em Brasília nos primeiros dias de abril de 1964 com um revólver no colo, o Exército brasileiro, a tortura, o DOI-Codi, com a sociedade civil derrubou a ditadura e delimitou reservas indígenas, enfrentando grileiros, posseiros e mineradoras. 

Minha mãe encostou na mesa e a virou, derrubando cartas, copos, o balde de gelo, a garrafa de uísque. Nunca mais jogaram truco na beira da piscina. O grupo se desfez. O morador que a peitou se mudou. E a paz reina até hoje nos almoços da massa condominial.

Seu Luizinho se apaixonou pela minha mãe de Ainda Estou Aqui, livro que escrevi sobre ela e publiquei em 2014, então já no estágio avançado do Alzheimer, com quase 90 anos. Ela descia com cuidadoras numa cadeirinha de rodas, apagada, esquecida. Reconhecia um ou outro. Não se comunicava. Sua história estava contada em livro. 

Soube chocado que seu Luizinho morreu depois de uma operação. Entrou andando no hospital e saiu no caixão uma semana depois. A dor na perna virou operação no coração e se transformou em septicemia. Deve ter morrido sedado. Lembro-me, da última vez que nos vimos que ele não trazia cigarros da rua. Parara de fumar há um ano. Estava bem. Do mesmo jeito. Um pouco ofegante, de subir a ladeira íngreme com calçadas irregulares do bairro. 

Que estilo de vida... Até sua morte, apesar de triste, que deixa saudades, do futebol, dos moradores, dos amigos, da família, especialmente das netinhas, foi discreta. Eu poderia, num trabalho jornalístico, saber mais detalhes. Mas prefiro ficar com a imagem que fiz. Como se fosse protagonista de um livro que li. Imagem do vizinho sereno e feliz. Com a vida que, eu o dizia, tanto invejava.

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