Um livro por dia

Caso você tenha perdido o resultado da partida entre o selecionado dos convidados da Tarrafa Literária e o Esporte Clube Bangu - Santos em meio ao noticiário eleitoral, o placar final foi de 6 a 6. O mando este ano foi do nosso já tradicional adversário, o Bangu, que escolheu o Centro de Treinamento Rei Pelé na cidade de Santos como palco do jogo.

Matthew Shirts - O Estado de S. Paulo,

11 de outubro de 2010 | 07h42

 

Um pouco antes de entrar em campo, tivemos a notícia de que Paulo Henrique Ganso, jogador da seleção brasileira, se encontrava nas dependências do centro de treinamento. Diziam que se dedicava a uma sessão de fisioterapia. Mas a informação era inquietante. Seria um boato espalhado para desestabilizar a estrutura emocional do nosso time? Corríamos o risco de ver o Ganso sair do complexo esportivo e ser escalado, na última hora, pelo Bangu?

 

Nosso time, o da Tarrafa, contava com jogadores de fôlego e grande capacidade criativa na frente. Mas a dupla da zaga, onde seu atuaria, pela direita, ao lado do escritor canadense Jeremy Mercer, pela esquerda, preocupava um pouco. Em primeiro lugar, pela falta de equipamentos esportivos adequados ao campo. O gramado, alto, pedia chuteiras com travas. Mas nem o Jeremy, nem eu, dispúnhamos do calçado. Havia, também, dúvidas quanto a possíveis desentendimentos com uma dupla de zagueiros - composta de jogadores oriundos do Hemisfério Norte, de língua inglesa. O fato de ser esta a primeira partida de futebol na vida do canadense também era motivo de alguma preocupação. Pelo menos não teríamos de enfrentar o temido centroavante Muralha, contundido desde o ano passado.

 

Ruivo e alto, Jeremy acabou se destacando na partida pelo entusiasmo. Desarticulou diversas triangulações adversárias. Enfrentou os atacantes do Bangu com coragem. Em retrospecto, tal atuação não deveria surpreender. Como repórter policial em um jornal do Canadá durante cinco anos, Jeremy passara por muitas situações de perigo. Cobriu assassinatos, roubos de vulto, cultivou fontes de informação entre criminosos perigosos. Quando revelou a identidade de um deles em livro, recebeu ameaças arrepiantes por telefone. Decidiu que estava na hora de sair do país. Deixou tudo para trás e partiu para Paris.

 

Conheci essa história através da sua obra Um Livro por Dia, que li logo depois da nossa partida contra o Bangu. Recebera eu a incumbência de entrevistar Jeremy no palco do Teatro Guarani durante a Tarrafa Literária, que ocorreu há duas semanas em Santos.

 

Um Livro por Dia conta as aventuras do autor em Paris. Sem dinheiro, sem ter para onde ir, sem perspectiva, o jovem repórter canadense descobre em suas andanças pela cidade a lendária livraria Shakespeare & Company, que fica ao lado esquerdo (rive gauche) do Rio Sena. Conheço a loja, é famosa. Estive lá diversas vezes durante a minha estadia na França em 1998. Lembra a City Lights de São Francisco, de onde Jack Kerouac partiu para escrever o clássico Pé na Estrada e mantém, até, vínculos com a livraria californiana. O que jamais suspeitei é que vivem na Shakespeare & Company não só seu proprietário, George Whitman, como também diversos transeuntes. Segundo Jeremy, já dormiram entre os livros mais de 40 mil pessoas desde 1951!

 

Foi ali que Jeremy encontrou abrigo. Em troca de moradia, George cobrou do jornalista a leitura de "um livro por dia". Daí o nome da sua obra, que gira em torno da sua estadia na loja com personagens levemente amalucadas. Recomendo o livro, que está quase esgotado em português e, por isso, difícil de encontrar (em inglês o título é Time Was Soft There).

 

Além da leitura diária, Jeremy está encarregado de outras tarefas. Atende no balcão, encomenda livros e tem a missão ainda de atender a outro pedido de George: que expulse um excêntrico poeta que vive lá há cinco anos - tarefa esta de grande dificuldade.

 

Quem sabe a editora Casa da Palavra não tira uma segunda edição de Um Livro por Dia. Com a fama conquistada no campo de futebol do Centro de Treinamento Rei Pelé por seu autor, é bem capaz de vender que nem pão quente.

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