Um livro para ler cantarolando

Se você é fã da música americana "clássica", respire fundo antes de começar a ler. Um livro de 706 páginas contendo 1.000 letras - mais exatamente, 1.003 - de canções americanas entre 1900 e 1975 acaba de sair em Nova York: Reading Lyrics, por Robert Gottlieb e Robert Kimball. É a resposta às preces de quem já fez (e quem não fez?) cadernos de letras ou, no caso dos veteranos, colecionou Filmelândia porque Daniel Taylor (lembra-se dele?) transcrevia aquelas letras que não conseguíamos "tirar". Pois estão todas em Reading Lyrics.É mais que um livro delicioso. É um monumento a uma arte popular que chegou à perfeição nos anos 30 e 40 e um tributo à capacidade do ser humano de expressar idéias e sentimentos de maneira tão bela e criativa. É o tributo também a uma, felizmente, longa época do século 20 em que a música popular era a favor do ser humano. É pré-rock, pré-rap, pré-hip-hop - os autores confessam não entender desses assuntos.O livro é dividido pelos cerca de 170 letristas, os quais aparecem na ordem em que vieram ao mundo. O mais antigo é Otto Harbach (1873-1963), autor das letras de, entre outras, Smoke Gets In Your Eves e Yesterdays. O mais jovem é Richard Maltby Jr. (n. 1937), autor de Today Is the First Day of the Rest of My Life e mais conhecido como idealizador de espetáculos como Ain´t Misbehavin e Fosse. Cada letrista faz jus a um breve perfil e seguem-se as suas principais letras - na íntegra, tiradas das partituras originais (e não de ouvido, ao som de Frank, Ella ou Nat, como fazíamos quando produzíamos nossos queridos e ensebados cadernos).À primeira vista, não falta uma única grande canção, a não ser que você seja um chato ou um espírito-de-porco. Irving Berlin é o mais presente, com 39 letras, seguido de Cole Porter e Lorenz Hart, com 37; Oscar Hammerstein II, com 36; Ira Gershwin, com 35; Johnny Mercer, com 30; e trinca Buddy DeSylva-Lew Brown-Ray Henderson, com 27; Yip Harburg e Frank Loesser, com 23; Dorothy Fields e Johnny Burke, com 19; Andy Razaf, Ted Koehler, Sammy Cahn e Stephen Sondheim, com 17; Noël Coward, Alan Jay Lerner e a dupla Betty Comden-Adolph Green, com 16. Os seis primeiros poderiam estar em ordem diferente e ninguém se queixaria - todos têm uma obra muito maior do que a amostra apresentada. Mas não se discute a eminência dos autores: Gottlieb já nos brindara há pouco com Reading Jazz um apanhado-mamute de textos clássicos sobre o jazz, e Kimball tem sido o editor, nos últimos 20 anos, das letras completas de Porter, Hart, Gershwin e Berlin. O que eles não sabem de música americana você não precisa saber.Daí talvez porque tenham sido econômicos na escolha de material dos titãs acima - queriam ganhar espaço para outros grandes letristas menos conhecidos. Mas, mesmo quando se trata dos gigantes de sempre, você terá surpresas. No caso de Cole Porter, os que pensam saber as letras completas de You´re the Top, Let´s Do It e My Heart Belongs to Daddy levarão um susto diante de várias estrofes desconhecidas e pouco ou nunca gravadas. No caso de Lorenz Hart, idem quanto às enormes e fabulosas letras de Manhattan, Bewitched e The Lady Is a Tramp. E no caso de Ira Gershwin, que adorava acrescentar estrofes a letras já estabelecidas, como às de I Can´t Get Started também estão todas lá.Mas é nítido o prazer com que Gottlieb e Kimball ostentam suas "redescobertas". Uma delas, a de Ted Koehler (1894-1973). Só as especialistas o conhecem pelo nome, mas, em parceria com Harold Arlen, ele foi o letrista de pequenas obras-primas como As Long as I Live, Between the Devil and the Deep Blue Sea, I´ve got the World on a String, Ill Wind When the Sun Comes Out e - devo acrescentar ou será covardia? - Stormy Weather. Há muitos casos em que as canções ficaram famosas e seus autores foram esquecidos, mas esse livro faz justiça a todos. Você conhece, sem dúvida, Dancing in the Dark, Alone Together, I Guess I´ll Have to Change My Plan, You and the Night and the Music e a hoje tão popular That´s Entertainment. Pois saberá dizer que a letra de todas elas coube a Howard Dietz (1896-1983), por sinal também o pai da idéia do leão como símbolo da MGM?E a sublime Dorothy Fields (1905-1974)? Poucas mulheres tiveram vez no apogeu da música americana - porque não se tratava de fazer uma ou outra letra por esporte, em casa, mas de disputar o sanguinário mercado de Broadway, de Hollywood ou de Tin Pan Alley, para onde as canções eram feitas. Por sorte, mulheres especiais, como Dorothy Fields, toparam a parada. Ela foi autora de I Can´t Give You Anything but Love, I´m in the Mood for Love, Lovely to Look At, I Won´t Dance, On the Sunny Side of the Street, The Way You Look Tonight e, minha favorita, disparado, Remind Me. Outra foi Carolyn Leigh (1926-1983), autora de Witchcraft, The Best Is Yet to Come, Young at Heart, You Fascinate Me So, When in Rome e It Amazes me. Por alguns desses títulos, pode-se perceber que Gottlieb e Kimball deram especial atenção àquelas canções "secretas", que durante décadas foram exclusividade de cantores como Mabel Mercer, Bobby Short e Blossom Dearis.Dorothy Fields e Carolyn Leigh não foram as únicas letristas. Houve também Peggy Lee, I Don´t Know Enough about You, Fran Landesman, Spring Can Really Hang You Up the Most, Nancy Hamilton How High the Moon, Billie Holiday God Bless the Child, Elisse Boyd Guess Who I Saw Today, Doris Fisher Put the Blame on Mame. Mas, assim como havia (e ainda há) cinco grandes cantoras para cada grande cantor, o mercado das letras sempre foi um feudo masculino.E que bom que Gottlieb e Kimball deram o justo destaque a Andy Razaf (1895-1973), o maior letrista negro dos EUA, parceiro de Fats Waller, Eubie Blake e Benny Goodman em maravilhas como Ain´t Misbehavin´, Black and Blue, Memories of You, Honeysuckle Rose, Stopin´ at the Sovoy, Keepin´ out of Mischief Now e muitas outras. E ao incrivelmente ignorado Tom Adair (1913-1988), letrista de Everything Happens to Me, The Night We Called it a Day e Violets for Your Furs. E a Bobby Troup (1910-1999), que, como se não bastasse, era marido de Julie London e escreveu letra e música de Route 66, Daddy e Baby, Baby All the Time (sabia que Julie também morreu no ano passado?)Você gostará de saber que As Time Goes By, música e letra de Herman Hupfeld (1894-1951), tem uma introdução tão bonita quanto a parte mais famosa. Aliás, Singin´ in the Rain, de Arthur Freed (1894-1973), também tem. E eis uma fácil: quem foi o letrista de Laura, Moon River, Satin Doll, Blues in the Night, Come Rain or Come Shine, Midnight Sun, One for my Baby, Something´s Gotta Give, Tangerine e That Old Black Magic (entre dezenas de outras canções que você já usou para fins imorais)? Leva o Moto-Rádio quem disse Johnny Mercer, é óbvio. Para você ver como não dá para folhear Reading Lyrics sem cantarolar.Aliás, esta é precisamente a proposta. Letra de música não é bem poesia e pode acontecer que, sem as melodias para as quais foram feitas, letras que nos soam celestiais na voz de Mel Tormé ou Carmen McRae parecem sem sentido na página impressa. Mas a junção de letra e música perfaz o que chamamos canção, e não conheço receita melhor que a de Yip Harburg: "A letra nos faz pensar pensamentos. A música nos faz sentir sentimentos. Mas a canção nos faz sentir pensamentos." Harburg (1896-1981) devia saber o que estava falando - afinal, foi o letrista de April in Paris, Last Night When We Were Young e Over the Rainbow.Que interesse pode ter este livro para leitores brasileiros? O mesmo que terá para leitores franceses, coreanos e guatemaltecos que se expuseram à grande canção americana no século 20. Não há praticamente quem desconheça a melodia de Cheek to Cheek, Fascinating Rhythm, Night and Day e mil outras. Nascidas na Broadway ou em Hollywood, elas correram o mundo e lhe emprestaram beleza durante décadas. Hoje a música americana domina esse mesmo mundo, mas só lhe empresta ira, ranger de dentes ou simples mediocridade. Por isso, Gottlieb e Kimball puseram o limite de 1975, com a ressalva de que algumas coisas boas continuaram sendo feitas na Broadway (por Sondheim, não por Andrew Lloyd Webber, eles advertem).Seria possível fazer um livro como este com letristas brasileiros. A simples possibilidade é de dar água na boca.

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