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Catia Donaduzzi
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Um ‘like’ faz diferença: a arte sobrevive durante o isolamento graças às redes sociais

Acompanhar publicações, lives, deixar comentários e adquirir itens dos artistas são algumas atitudes que fãs podem ter para motivá-los na pandemia

Taísa Medeiros, Especial para o Estadão

14 de julho de 2021 | 20h00


O palco era a segunda casa deles, mas com as medidas restritivas de isolamento social, um novo espaço de interação precisou ser criado. Foi nas redes sociais que muitos artistas se desafiaram e redescobriram seu amor pela atuação, música ou performance. Quase um ano e meio depois do início da pandemia, há quem tenha se adaptado às lives, quem tenha aprendido a lidar com a presença online e até mesmo quem precisou administrar outra atividade.

O cantor e compositor da banda Olodum, de Salvador, Mateus Vidal, se encaixa no último grupo. No início da pandemia, chegou a usar algumas reservas que tinha, mas em novembro de 2020 decidiu voltar a atuar como guia turístico no Centro Histórico de Salvador. “A situação financeira ficou bastante delicada, pois a minha renda principal vinha da música. Quando a grana se esgotou tive que voltar a atuar na área do turismo, na qual tenho formação profissional”, comenta o artista, que costumava a realizar a atividade ocasionalmente, quando a agenda de shows permitia. 



A agenda da banda Olodum estava cheia de apresentações quando a pandemia começou: precisaram desmarcar uma turnê na Europa, um show na China - local que se apresentariam pela primeira vez - e a gravação de um clipe na Etiópia. Hoje, o grupo se mantém ativo e em contato com o público pelas lives nas mídias sociais. Mateus diz que essa possibilidade é um alento, “porque de alguma forma estamos fazendo o que gostamos e, mesmo à distância, estamos levando alegria e cultura para os nossos fãs”, diz. Mateus ainda comenta que as mensagens de carinho e incentivo dos fãs são o que mantém a esperança do reencontro para ele.

Para a atriz, diretora e roteirista, Patsy Cecato, a chegada da pandemia foi um desafio para manter as aulas de teatro que ministrava. Com grupos de expressão pessoal, teatro para senhoras 50+ e estudos de teatro, precisou pensar alternativas para que os alunos não perdessem a motivação. “Eu me perguntava ‘como vou fazer essas pessoas sentirem prazer em praticar teatro em casa sozinhas?’ porque o teatro é um processo coletivo”, relembra. 



A dramaturga, que tem mais de 40 anos de carreira, com espetáculos consagrados como Bailei na Curva, Se Meu Ponto G Falasse e Manual Prático da Mulher Moderna, conta que além das aulas online, realizou e participou de lives. Além disso, seus espetáculos foram exibidos virtualmente com cobrança de bilheteria, mas não houve grande adesão e os cachês pagos aos atores foram menores do que o esperado.


 

Adaptação para seguir levando a arte

O universo das redes sociais foi aos poucos sendo descoberto pelos artistas. Com Patsy não foi diferente: hoje todas as criações de sua produtora, a Cômica Cultural, feitas durante a pandemia, estão disponíveis no Instagram e no YouTube. “Também descobri que tem um tipo de post que tem mais retorno, um tipo de assunto, de pessoa e imagem. E dentro desse universo eu ainda sou um bebê”, conta. Suas turmas produziram um curta-metragem e uma microssérie de 10 episódios, além de seguirem alimentando os canais criados para o contato com o público.

Apesar de conseguir manter algumas turmas, a renda de Patsy diminuiu consideravelmente. “A gente teve que se reorganizar, fazer um corte nos excessos, e com ajuda de todos fomos levando. Sem dívidas no cartão de crédito, no banco. Eu me sinto hoje muito privilegiada, consigo viver em isolamento sem dever pra ninguém. Isso pra mim já é uma grande vitória”, desabafa. 

A produtora Cômica Cultural foi beneficiada com 3 editais da Lei Aldir Blanc, que destinou R$ 3 bilhões a projetos culturais de todo o País, para minimizar os efeitos da pandemia sobre o setor. Patsy conta que o auxílio foi determinante para sua saúde financeira e mental. “No meu caso não foi pra matar minha fome física, como foi o caso de muitos,mas  aquela fome de ser humano, de ser normal. Pior coisa é o artista se sentir sem utilidade na sociedade, que ele não é bem-vindo na sociedade”. Neste período, a artista aproveitou para produzir e estudar novos trabalhos com mais tranquilidade. 

Também descobrindo novas formas de viver a arte durante a pandemia, o estudante de bacharelado em Educação Física, já formado na licenciatura, Gabriel Tochetto, tinha na atividade artística sua fonte principal de renda. Desde 2014, o jovem de 24 anos se apresentava no bar WorkRoom, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, como a drag queen LadyVina



Com o fechamento do bar devido às medidas de isolamento, ele e seus colegas precisaram recorrer a todo tipo de ajuda. Gabriel contou com os auxílios do governo, a ajuda da família e começou também a fazer mantas de lã para vender pelas redes sociais. Mas para ele, comunicar pela tela não era algo tão natural, muito menos para divulgar seu trabalho. “Meus amigos super me ajudam com a edição dos vídeos e tudo o mais. Mas precisei vencer minhas limitações, cheguei a pedir ajuda com likes e compartilhamentos”, conta Gabriel, que também fez algumas lives de performance como LadyVina junto com colegas com doações espontâneas do público. Ver o apoio de quem já acompanha seu trabalho foi o que deu o gás que faltava para não deixar para trás a profissão. “É muito difícil para o artista ficar sem o aplauso”, desabafa.

O tão falado algoritmo das redes sociais, no entanto, não o animava: “parece que a gente fica à mercê de uma coisa que a gente não vê, do algoritmo. Por mais que eu tenha visto um aumento na interação, era pouco perto do esforço que eu estava fazendo”. Para ele, a saída foi inscrever-se em editais de apoio às iniciativas culturais, em especial os da Lei Aldir Blanc. O bar em que Gabriel performa foi selecionado para receber subsídios da lei, o que possibilitou com que apresentações culturais das drag queens fossem feitas online, com pagamento de cachê. “Foi uma forma de ainda sentir a drag viva”, declara.

Também subsidiados pela Aldir Blanc, o grupo Calu Brincante, de Salvador, buscou de todas as maneiras não perder sua conexão com o público infantil. No primeiro momento da pandemia, os atores estavam preparando um espetáculo, o Sarauzinho da Calu. Com o fechamento dos teatros, o jeito foi pensá-lo de outra maneira. Assim nasceu o Sarauzinho da Calu - Dendicasa, uma iniciativa para adaptar a apresentação para ser transmitida pela plataforma Zoom. João Victor Soares, ator da Calu Brincante, conta que foi preciso muita adaptação: “fizemos oficinas de cenário e iluminação, os atores todos em casa, com lanterna, pra montar o cenário com o que tinha em casa”, lembra. 



Durante este processo, além de adaptar seu espaço, João Victor, resolveu estar mais presente enquanto profissional nas suas redes sociais, publicando mais fotos e vídeos artísticos e sempre estando de olho no engajamento. “Quando o post recebe muitos comentários e curtidas a gente percebe que alguém está gostando e se sentindo contemplado. Isso também gera renda, quando se pensa na reverberação, porque de nada adianta pra gente enquanto artista fazer uma obra e deixar guardada, sem ter o retorno do outro”, conta. 

Para a Calu Brincante, este processo também foi uma experiência nova, que permitiu inclusive expandir as fronteiras da apresentação. “Tivemos público de outros estados e até de fora do País. Ao final da apresentação a gente abria as câmeras pra ter esse bate papo com o público, e era interessante ver que dentro de casa, tinha alguns no sofá, comendo alguma coisa, com a mãe, com o pai do lado. É uma outra realidade de recepção do público que foi muito interessante”, comenta. Com os subsídios do edital, também foram produzidos um jogo online destinado ao público infanto-juvenil e um CD, com as músicas originais do espetáculo. 

Apesar dos esforços de adaptação, a vivência do palco, para um artista, jamais poderá ser substituída. Hoje, há um ano e cinco meses sem poderem enxergar a presença da plateia, só resta a muitos reviverem as lembranças simples. “Eu tenho mais saudade quando eu sento na plateia, vejo no meio do público e vejo aquelas pessoas tendo prazer, tendo alguma espécie de elevação, e eu olho e penso ‘eu tô muito feliz’. É nesse momento, de compartilhar com o outro”, diz Patsy. 

 

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