Um lar para a soul music

Como uma humilde casinha de tijolos no bairro do Brooklyn, em Nova York, produz hoje os melhores discos de black music

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2011 | 00h00

O futuro da soul music encontra-se em Bushwick, região pobre no norte do Brooklyn. Ele está escondido em uma casa alugada de dois andares, feita de tijolos, no número 115 da Troutman, rua suja onde se compra um carro modelo 2000 por US$ 3.250. Nesse imóvel decadente funciona a Daptone Records, gravadora de discos de vinil fundada em 2002 por Gabriel Roth, um aficionado pelo gênero que fez sucesso nos anos 60 ao combinar elementos do gospel e do rhythm and blues. "Soul music é aquilo que desperta bons sentimentos, é o equilíbrio perfeito entre ritmo, sinceridade e emoção", diz Roth.

Compositor, baixista e engenheiro de som que utiliza apenas equipamento analógico, Roth é responsável por lançar a carreira de Sharon Jones, cantora que, acompanhada pela banda The Dap-Kings, vai se apresentar no Brasil neste ano. Ela é o membro mais bem-sucedido da família Daptone, inspirada nas antológicas Stax (gravadora de Memphis) e Motown (de Detroit). "Sozinha, ela vende mais do que todos os outros artistas da casa", informa. "Nos últimos dois lançamentos, foram comprados 300 mil discos, ótima marca para um selo independente."

Nenhum dos músicos tem privilégio na gravadora. Antes de registrar a sua arte para a posteridade, eles tiveram de trabalhar com as próprias mãos. "Sharon Jones refez a rede elétrica da casa toda e o cantor Charles Bradley trocou o encanamento, além de construir a escada de madeira que dá acesso ao porão onde guardamos o nosso estoque." (Bradley é o lançamento mais recente da Daptone. Aos 62 anos, estreia com No Time for Dreaming, disco que será apresentado no Southpaw, bar do Brooklyn, na terça).

Gabriel Roth reformou as paredes do primeiro andar, onde fica o estúdio de gravação. Para fazer o isolamento acústico do ambiente, ele catou borracha de pneu nas ruas do Brooklyn e usou tiras de tecido descartado por uma fabricante de roupas. O cômodo guarda também os instrumentos - piano, órgão, saxofones, bateria - usados nas sessões para as quais a Daptone é contratada.

No mesmo andar, junto à entrada, está a sala do controle de áudio. Roth colocou ali o equipamento analógico responsável pela sonoridade vintage dos discos. "O que mais gosto é de gravar em oito canais." O compositor opera uma eight-track tape da Ampex, tecnologia que emprega fita magnética. "Se fizermos alguma coisa errada, já era, perco todo o material", afirma. "Existem truques, como cortar um pedaço da fita e emendá-lo com outro, mas seguimos à risca a filosofia de capturar, sem alteração, o que realmente aconteceu nas sessões." Não há pausa. Os ajustes entre o engenheiro de som e os músicos ocorrem durante a gravação.

Como o erro significa desperdício de trabalho, lembra Roth, a atmosfera no estúdio acaba mudando. "Quando gravam com um equipamento analógico, os músicos atuam de outro jeito: eles se obrigam a ser competentes." Os limites tecnológicos são a fonte da qualidade. Embora ofereça download de MP3 e lance CDs pela Daptone, Roth abomina o uso de computadores. "A nossa tecnologia mais moderna é um toca-CD que mal usamos." Para ele, o que estraga a gravação de um disco é a busca obsessiva da perfeição. "Os trabalhos tecnicamente impecáveis estão destruindo a expressão humana na música."

Roth é crítico de um fenômeno criado pela internet: o vício da quantidade. Para ele, os ouvintes se pautam pela capacidade de baixar conteúdo digital, esquecendo-se de aproveitar os sons armazenados no computador. "A relação mais profunda com o disco está se perdendo." Segundo Roth, colocar quatro dias de músicas dentro de um iPod sempre vai significar menos do que ouvir 20 vezes o mesmo disco de Otis Redding. Importante é repetir. "Por isso, até hoje faz sentido a pergunta: "Se você fosse para uma ilha deserta, que discos levaria?" Ninguém tem coragem de perguntar quantos milhares de arquivos MP3 alguém levaria."

Depois do fracasso com uma empreitada anterior, a gravadora Desco, Roth se aliou ao instrumentista Neal Sugarman para criar a Daptone, que começou produzindo 45 rotações. "A cada lançamento vendemos uma média de 3 mil discos nesse formato." Ele chamou a atenção do mercado e de ícones como Jay-Z após oferecer músicos, instrumentos e o estúdio para a gravação de seis faixas - entre elas o hit Rehab - de Back to Black (2006), da cantora inglesa Amy Winehouse. Além de um Grammy Award, Roth recebeu um disco de platina pelo trabalho de engenharia sonora em Back to Black, com o qual parece pouco se importar. O disco de platina fica largado no chão do escritório no segundo andar, como se não tivesse valor. Roth considera Amy muito posuda. "Ela é talentosa, mas não faz o meu tipo. Existem várias cantoras iguais a ela emitindo aquela voz de gargarejo." Segundo ele, o exemplo de canto irretocável em gravações vem de Smokey Robinson.

O sonho maior de Roth é gravar com Tina Turner. Outros músicos que gostaria de convidar para os seus estúdios são Barbara Lynn e Howard Tate. A família Daptone é grande. Além de Charles Bradley, Sharon Jones e The Dap-Kings, é formada por The Budos Band; The Menahem Street Band; Naomi Shelton e Gospel Queens; Como Now; Bob & Gene; The Sugarman 3; Pax Nicholas & The Nettey Family; The Darktaris; Binky Griptite e The Mello Martis; e The Night Imperials. Com os negócios cada vez mais rentáveis, os familiares tendem a aumentar, segundo Roth. "Os grandes fãs de música nos mantêm", diz. "Eles sabem que somos honestos, que o nosso objetivo é gravar discos que façam bem."

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