Robson Fernandjes/AE
Robson Fernandjes/AE

Um jogo histórico

Nem sempre queremos dizer a mesma coisa quando dizemos que um fato é histórico. Às vezes dizemos "histórico" quando se trata de algo excepcional, fora de série; de algo que nunca antes tinha acontecido, mas que em certo momento acontece e que por isso mesmo se sabe que será inesquecível. Mas outras vezes dizemos "histórico" para nos referirmos ao que permanece e se prolonga, o que dura ao longo do tempo até definir, na maioria das vezes, o sentido do que chamamos de "tradição".

MARTÍN KOHAN, especial para o Aliás,

01 de julho de 2012 | 02h45

 

A final da Copa Libertadores da América entre Boca e Corinthians é histórica para os dois clubes, mas em uma acepção diferente para cada um deles. Para Corinthians é da ordem do acontecimento: o que acontece pela primeira vez. Pois o Corinthians conseguiu subir a uma instância que até agora lhe era proibida, ou pior que proibida, reservada a outros times, como Santos, São Paulo, Flamengo, Grêmio, Internacional, Palmeiras. Para o Boca, por outro lado, uma final da Copa Libertadores é um assunto conhecido, é parte de uma continuidade, pouco menos que um costume. Esta final é histórica para o Corinthians porque vem mudar sua história; para o Boca é, por outro lado, porque faz parte de sua história, e na verdade vem confirmá-la.

 

A Copa Libertadores da América (o único caso em que se pode dizer "América" a seco, sem que ninguém entenda que se está referindo aos Estados Unidos) é a verdadeira prova de valor para os times do continente. E não só porque é o torneio em que se enfrentam fundamentalmente os campeões e sub-campeões de cada país, mas porque apresenta aos participantes a experiência mais radical, mais visceral e mais extrema do que implica ser o anfitrião ou o visitante. Nenhum outro campeonato, e quase nenhuma outra circunstância, promove tão fortemente, eu diria que no mundo inteiro, a proteção vigorosa no próprio lugar e o avanço arriscado sobre os lugares alheios.

 

Na Copa, cada time local, e ao seu lado seus torcedores em multidão, resistem em seu território para torná-lo inexpugnável, para impô-lo aos forasteiros como se impõe uma verdade, como se impõe uma condenação, como se impõe uma moral da história, como se impõe uma conclusão. A localização é um fator de influência em qualquer torneio de futebol, como tendem a demonstrar os mundiais, e por isso o Maracanazo de 1950 é uma ferida tão aberta no corpo esportivo do Brasil. Mas a Copa Libertadores leva esse condicionamento ao limite: no jogo jogam os jogadores, o corpo técnico, o estádio como tal, o campo desse estádio, o hotel da cidade, a cidade, o caminho entre o hotel e o estádio, os torcedores que vão ao estádio, os que não vão, e ainda as pessoas que permanecem alheias ao jogo.

 

Os times visitantes na Copa Libertadores funcionam como forças de exploração em perigo, expostos em minoria ao império do outro, uma expedição a quem se despede como se despede dos astronautas e dos navegantes que zarpam sem mapas certos. Os que jogam o jogo e o punhado de torcedores que vão com eles (não importa quantos sejam, valem sempre por punhado) se aventuram na experiência mais absoluta do que se supõe ser um intruso. Se ganham, como ganham em não raras ocasiões, algo maior que uma vitória esportiva se celebra: celebra-se uma proeza territorial, geográfica, intercultural, a proeza de quem soube se imiscuir ali onde não se pertence e ademais soube encontrar, nessa minoração geral, alguma forma de fortaleza.

 

O Corinthians estreou sua primeira vez nas finais da Copa Libertadores jogando no terreno do Boca: empatou o jogo e o festejou como se na verdade tivesse ganhado. O Boca, por sua vez, começou a jogar assim sua décima final, porque é a décima vez que alcança essa possibilidade. Foi campeão em 6 das 9 vezes em que já jogou; 4 dessas 6 vitórias foram contra times brasileiros e fora de Buenos Aires (contra Cruzeiro, em Montevidéu, em 1977; contra Palmeiras, em São Paulo, em 2000; contra Santos, em Santos, em 2003; contra Grêmio, em Porto Alegre, em 2007).

 

Cada qual, como é compreensível, cifra suas esperanças de ganhar em sua própria colocação na história, em sua própria versão da história e em seu próprio pacto com a história: aos torcedores do Corinthians parecerá que eles vão ganhar esta Libertadores porque nunca a ganharam antes, e por consequência isso tem que acabar alguma vez; aos torcedores do Boca nos parece que vamos ganhar esta Libertadores, porque tantas vezes já a ganhamos, porque sempre ou quase sempre assim aconteceu, e por consequência é isso que tem que acontecer.

 

Costuma-se associar essa classe de enfrentamentos esportivos, os internacionais, com duelos que de alguma maneira envolvem fervores e valores do patriotismo. É discutível essa pertinência talvez em todos os casos; mas tratando-se do Boca, carece de todo sentido. É preciso destacar que, ainda que Boca faça parte da Argentina, para seus torcedores em geral, e entre eles eu mesmo, o time ultrapassa a Argentina, a supera, nos importa mais, nos afeta mais. A seleção argentina e Boca jogaram um amistoso entre si, lá por volta de 1977, e não acredito que nenhum boquense tenha tido dúvida sobre as cores pelas quais seu coração deveria bater mais rápido e mais forte.

 

Quando Diego Maradona jogou sua partida de despedida do futebol, o fez com uma camisa da seleção argentina; em determinado momento do jogo homenagem, tirou essa camisa e deixou ver que por baixo vestia a camisa do Boca. Com ela terminou de jogar. E ninguém, a começar por ele mesmo, sentiu nenhuma diminuição na mudança; ao contrário: o que aconteceu foi um aumento, um salto a uma dimensão maior. A estrela atual do time, Juan Román Riquelme, o gênio melancólico, o herói ensimesmado que prefere dar alegrias mais que vivê-las, compreendeu nem mais nem menos que isso: que tendo o Boca tem tudo, e isso lhe permite prescindir da seleção argentina.

 

Nesta final contra o Corinthians, o Boca assume o desafio de dar alcance ao Independiente de Avellaneda e se tornar o maior vencedor da Copa Libertadores da América ao longo de suas cinco décadas de disputa. Longe, muito longe, em águas de humilhação, flutua ou melhor afunda o clássico rival de sempre; o murcho River Plate, que acaba de passar a inapagável vergonha de jogar na segunda divisão do futebol argentino. Esse clube foi campeão da América em apenas duas ocasiões, apesar de jogar a Libertadores praticamente todos os anos. Isso o transforma sem dúvida em um dos maiores perdedores do mundo no plano internacional, que é justamente onde a coragem e as guelras se põem verdadeiramente à prova.

 

O futebol em si mesmo não é nada, mas por isso mesmo pode significar tudo. Passa como se fosse importante, ou mais ainda, como se fosse grave; passa como se fosse questão de vida ou morte. Sabemos muito bem que não é, mas agimos como se fosse. Sabemos perfeitamente bem que nem a vida nem a morte se jogam em uma final de Copa Libertadores da América. Mas o jogo também é esse, ou é esse acima de tudo, não menos que o da bola, das traves e dos 22 jogadores: sofrer e gritar, angustiar-se ou exaltar-se, amargar-se ou festejar, como se não houvesse outra coisa no mundo. Vão jogar Boca e Corinthians para decidir quem será o campeão da América. Não nos vai a vida nisso, claro. Mas os torcedores de um e de outro vamos jogar como se fosse. (Tradução Juliana Sayuri)

 

 

* MARTÍN KOHAN, escritor argentino e professor de Teoria Literária da Universidade de Buenos Aires; autor de dois livros de contos e seis romances, entre os quais "Duas vezes junho" (Amauta Editorial, 2005) e "Segundos fora" (Companhia das Letras, 2005).

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