Um jogo fluido entre público e intérprete

Uma mesa e 30 cadeiras acomodam os espectadores que são convidados a partilhar sonhos com Márcia Rubin

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2013 | 02h14

Ela tem um perfil bem particular. "Eu faço dança no teatro" - é assim que Márcia Rubin fala sobre estar ao mesmo tempo nos dois campos artísticos. A curiosidade sobre como resolve isso pode ser respondida a partir de hoje, no Sesc Belenzinho, onde vai apresentar um minitemporada de dois fins de semana do solo que estreou em novembro, no Rio, Enquanto Estamos Aqui.

Na verdade, esse solo começou como um duo. "No início, estava fazendo uma pesquisa com o César Augusto, mas ele, que é um homem desdobrado em mil, estava cheio de compromissos", conta Márcia, em entrevista por Skype ao Estado. "Costumo dizer que esse é um solo compartilhado, porque me sinto muito em companhia do Márcio, do Pedro e da Verônica. Márcio Abreu, que me dirige, divide a dramaturgia com Pedro Kosovski, que é neto da Maria Clara Machado, vem de uma nova geração do Tablado, e também fez esse projeto. Verônica Prates assina a assistência de direção e está comigo há muito tempo."

Com Pedro Kosovski, Márcia trabalhou nas quatro últimas criações da companhia que ele fundou, a Aquela Companhia de Teatro. E o encontro com Márcio se deu na companhia que ele dirige, a Cia. Brasileira de Teatro, na peça De Verdade, e continuou em Esta Criança.

No teatro, Márcia Rubin vem construindo uma sólida carreira. Ganhou o Prêmio Shell 2011 como diretora de movimento por seu trabalho em A Lua Vem da Ásia, O Filho Eterno, Escola de Escândalo e Outside. Na dança, ensina na Faculdade Angel Vianna desde o segundo semestre de sua criação, em 2002, e cria espetáculos em intervalos espaçados. Começou coreografando para o seu grupo Tudo Que Eu Nunca Te Disse (1998), A Paisagem Daqui É Outra (2002), Tempo de Valsa, Delicado com Elegância (2005) e Daqui Pra Frente (2006). "Nessa produção, eu tinha um pequeno solo e Bia Radunsky, do Sesc Copacabana, me convidou para desenvolver aquela pequena ideia. Foi assim que nasceu meu primeiro solo, Quase Como Se Fosse Amor (2008), depois o Larga Tudo e Vem (2009), e agora o Enquanto Estamos Aqui."

O nome da recente criação vem de uma frase de Virginia Woolf. "Tirei de um livro dela, mas não anotei e não me lembro mais qual foi. Me acompanha há muito tempo e já foi até título de um projeto que fiz para a Petrobrás e não foi aceito: Enquanto Estamos Aqui, Tudo no Mundo Acontece. O foco são o 'enquanto' e o 'aqui', uma tensão que ficou muito forte para mim, talvez porque agora esteja mais velha."

O cenário, criado por André Sanches, é composto por uma grande mesa, que faz o papel de palco, cercada por 30 cadeiras, nas quais o público senta. O objetivo é propor um jogo fluido entre intérprete e espectadores, realidade e ficção, imagens e movimentos, a partir do simbólico e do imaginário, da analogia entre a criação e o sonho.

"Estou em um momento muito feliz. O trabalho com o Márcio foi muito bom e gosto do resultado ao qual chegamos. Na dança, o que me move não é só o desejo de coreografar, porque vem antes o desejo de expressar, de ser intérprete. Criar se torna quase uma contingência: preciso fazer para poder interpretar", conta ela.

Rodrigo Marçal compôs a música e Ticiana Passos assina os figurinos. Nessa produção, Márcia canta, interpreta e dança, e se confessa preocupada, como todos os que vivem de editais, com a continuidade do seu trabalho. "Levar adiante a pesquisa em dança é muito difícil nessa situação de dependência de editais em que estamos. Por isso, junto com ele, tenho assinado a direção de movimento no teatro e nela reúno desde a preparação corporal até o olhar sobre a cena, fazendo com que o ator perceba melhor o seu potencial e a expressividade do seu corpo, para trabalhar com mais confiança, arriscando mais os sentidos do seu corpo."

As referências de Enquanto Estamos Aqui são o poeta norte-americano e.e.cummings, o pensador mexicano Octavio Paz, os coreógrafos Jerôme Bel (França), William Forsythe (EUA) e Anne Teresa de Keersmaeker (Bélgica).

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