Um jogo fascinante. Para quem logra entrar no labirinto

Na entrevista acima, Lourenço Mutarelli confessa que David Lynch é uma referência e uma identificação, em sua vida e trabalho. Há algo de Império dos Sonhos em Natimorto, o livro, que o diretor Paulo Machline logrou transportar para a tela. Isso certamente não é irrelevante, mas você não precisa dessa leitura para apreciar o filme que estreia hoje.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2011 | 00h00

Ela é possível, não necessária - Mutarelli, lynchianamente, estabelece um jogo de cartas de tarô baseado nas advertências dos maços de cigarros. Isso ressalta a paranoia que está na essência do personagem e que ele libera. Ao fazê-lo, transforma a mulher numa espécie de refém, mas ela cede ao jogo e o espaço da casa, do quarto, vira a cela dos embates em que ambos se engalfinham.

O homem, identificado apenas como o Agente, constrói uma relação um tanto bizarra com as figuras que retira dos maços. Usa-os para prever o próprio futuro. Por exemplo, se a advertência no maço de cigarros ressalta os perigos da impotência para o fumante, a associação é com a Lua, na carta de tarô. O jogo, pois se trata de um jogo intelectual, será tanto mais interessante se o espectador penetrar no seu mistério (ou desafio).

Na verdade, é sempre assim no cinema. Nenhum filme vem com bula de receitas, estipulando como o espectador deve usá-lo, perdão, vê-lo. Depende do esforço, do envolvimento de cada um. Tem gente que se desinteressa - pior para quem se perde no labirinto. Natimorto fascina por esse cenário concentracionário, quase único. Tudo se passa num interior opressivo que pode muito bem ser a representação do útero.

O homem mata a mulher? Nada é claro, definitivo. Tudo é nebuloso, mas os signos, lynchianamente, se fazem presentes e você pode retirar dessas alegorias uma reflexão realista sobre o homem e a mulher no mundo. Nesse processo, o elenco revela-se o mais forte aliado do diretor.

No cinema, arte da mise-en-scène, tudo passa pelo ator. Simone Spoladore nunca esteve mais bonita e misteriosa, criando uma personagem - a cantora de ópera - que brinca de ser represada sem se deixar prender, realmente. A própria atriz admite que não sabe se chegou a entender a personagem. A não explicação, a não "racionalidade", a torna mais fascinante. Mutarelli não é um ator profissional, mas é um ator nato. Sua excepcional criação ressalta o estranhamento de Natimorto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.