Um jogo de duplos no Fausto de Sokurov

Obra-prima absoluta, filme trata o cientista e Mefistófeles como duas faces de uma mesma moeda

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

18 Julho 2012 | 03h10

Sokurov é mais literário do que cinematográfico. Pelo menos é assim que se autodefine o cineasta russo. Seu Fausto, porém, não poderia ser feito por alguém que só gostasse de literatura. Desde seu prólogo, uma tomada aérea em movimento descensional, percebe-se que a referência às paisagens do pintor flamengo David Teniers é insubmissa ao verbo. Do céu para o corpo rembrandtiano de um morto (sendo dissecado por Fausto à procura de sua alma), o olhar de Sokurov exercita uma correspondência entre a "tragédia filosófica absoluta" de Goethe e a carnavalização formal inscrita nessa obra-prima híbrida.

Só alguém com conhecimento de geometria sagrada poderia começar e terminar um filme com uma tela em forma de quadrado - a única que não existe na natureza. E ambientar nessa forma "perfeita" sua mascarada paródia sobre o homem que vende sua alma ao diabo em troca do poder. Sokurov entende a ironia de Goethe: todo poder fáustico é irreal, não existe. Aparentemente, o quadrado, forma criada pelo homem, contém o círculo, que não tem começo nem fim, mas, na verdade, é o círculo que contém o quadrado. O verdadeiro poder, imaterial, eterno, infinito, não pode ser contido.

Antes de tudo, é preciso reconhecer que estamos diante de uma obra-prima como A Palavra, de Dreyer, ou O Sacrifício, de Tarkovski. A importância do Fausto de Sokurov mede-se não pelo prêmio máximo em Veneza, mas pelo testemunho de um milagre no cinema: a sequência em que hostes angélicas derrotam as demoníacas e resgatam Margarida, fazendo-se a luz em meio às trevas, como num jogo tonal das telas do maneirista flamengo Herri Met de Bles. Essa luz que emana do rosto da Margarida (Isolda Dychaulk) e invade a sala é uma das cenas mais arrebatadoras da história do cinema, uma manifestação teofânica comparável à ressurreição do morto em A Palavra.

Sokurov orientou seu diretor de fotografia Bruno Delbonel a criar essa luz dourada, diáfana, que contrasta com a tonalidade plúmbea do epílogo da tragédia, a danação de Fausto no território infernal da solidão eterna. A paisagem inóspita de montanhas escarpadas, nessa sequência final, reproduz as paisagens de Bless, cujo único quadro não religioso trata justamente do pesadelo de um vendedor ambulante com o demônio. O Anticristo, nessa tela de Bless, surge na forma de um macaco - e é um primata que o dono da loja de penhores Mauricius vê na lua através do telescópio de Fausto. Mauricius/Mefistófeles identifica, de fato, a própria imagem (vale lembrar que macacos diabólicos fazem parte da tradição pictórica).

A erosão dessa imagem culmina na cena do banho de Mefisto. Sokurov transforma-o num monstro disforme. É arrogante como Hitler, irritadiço como Lenin e uma deidade caída em desgraça como o imperador Hiroito, as três outras figuras, além de Fausto, que o cineasta russo tratou em sua tetralogia sobre a corrupção do poder (Moloch, Taurus, O Sol). Como grandeza e poder são incompatíveis, Sokurov faz de seu Mefisto um ser repugnante, sulfuroso, mefítico, incapaz de enxergar o próprio aleijão. Desconsiderando o conceito de "carnavalização" de Bakhtin, que analisou as mascaradas e procissões do passado, é provável que o espectador desavisado possa ver nele apenas um alien de Giger, e não a essência do mal, que contrasta com a pureza de Margarida, a encarnação da beleza celestial desejada por Fausto.

Sokurov, que fez em seu filme uma leitura livre de Goethe e Thomas Mann, terminou por assimilar o tom farsesco do primeiro, reduzindo o pacto com o demônio a uma penhora da alma em que Fausto despreza a formalidade da assinatura (com o próprio sangue). Para o homem de ciência, Mefistófeles não passa de um homúnculo, um pobre diabo, até concluir que o Übermensch, o ser superior que ele se julga, é seu duplo. Ambos trocam de papel com suspeita frequência. Essa é a verdadeira tragédia faustiana. É de bestialidade que trata sua tetralogia.

Roberto DaMatta. O colunista, que escreve às quartas-feiras nesse espaço, está em férias.

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