Um jazz ousado, sem piano, em busca de desafios

Norte-americanos lançam trabalhos originais em torno da expressividade do saxofone

João Marcos Coelho, de O Estado de S. Paulo,

14 de junho de 2009 | 14h36

Autonomeado inventor do jazz, Jelly Roll Morton (1890-1941) era pianista, mas o fato é que o piano só se afirmou no gênero nas proximidades dos anos 20 do século passado. Mas, mesmo não tendo estado presente em seu nascimento, o piano dominou a cena jazzística de lá para cá. Uma predominância avassaladora. Por isso, até hoje, toda vez que um grupo o dispensa ficamos naturalmente curiosos para conferir o resultado - e a previsível falta que ele faz.

 

Veja também:

som Ouça trecho de Mark Turner

som Ouça trecho de Joshua Redman

 

Dois saxofonistas enfrentam o desafio em recentíssimos CDs lançados no mercado internacional. Ambos na casa dos 40 anos, Mark Turner e Joshua Redman desenvolveram carreiras paralelas e várias vezes tocaram com os mesmos parceiros. É sintomático que ambos girem, espiritual e musicalmente, em torno do universo jazzístico de um só pianista, Brad Mehldau. Redman gravou Mood Swing em 94 (WEA) com ele. Mark Turner também, em Consenting Adults (Criss Cross), naquele mesmo ano. Não por acaso, Mehldau paira em ambas as gravações como uma espécie de sumo sacerdote "ghost". Sua estética tecida com refinamento e flertes com formas clássicas parece contaminar Turner e Redman.

 

Primeiro Redman. Ele explodiu na cena nova-iorquina no início dos anos 90 como um dos "young lions" praticantes de um jazz moderno, ma non troppo. De lá para cá mantém sólida carreira. Em Compass, porém, salta de patamar, crava um golaço em termos de qualidade criativa. Convoca duas duplas de contrabaixo-bateria: Larry Grenadier e Reuben Rogers; e Brian Blade e Gregory Hutchinson. Constrói, assim, um quinteto originalíssimo, em que a harmonia rarefeita fica a cargo das duas graves vozes dos contrabaixos. Cinco das treze faixas são interpretadas com esta formação. Mas não se assuste. Não há barulheiras infernais. Redman está preocupado em fazer dialogar os instrumentos: ele prefere tecer a linguagem do contraponto - postura bastante saudável, que Bach nos ensinou há trezentos anos.

 

Vamos a exemplos concretos. Em Identity Thief, o sax-tenor e o contrabaixo começam em uníssono para em seguida "disputar" a posse da melodia angulosa com muitas afinidades monkianas, desembocando num admirável contraponto a capela, com curtas e sóbrias intervenções das baterias (você as ouve nitidamente, uma à esquerda, outra à direita, no áudio). Aqui fica claro o esquema pergunta-resposta, atávico no jazz, no jogo das duas baterias. Depois desta incrível abertura, que dura 2 minutos e meio, surge o beat. E como Redman está maduro em seus improvisos. Foge dos clichês; surpreende sempre, inclusive no gosto pelos intervalos menos convencionais em suas evoluções escalares. Rogers e Grenadier fazem então um dos mais belos solos em dupla que já ouvi: o primeiro faz o walking bass enquanto o segundo literalmente "viaja". A coda final retoma o tema que Monk poderia tranquilamente assinar (será este o sentido do ladrão do título?).

 

A monotonia passa longe. Hutchihiker’s Guide é um exercício de precisão e brincadeira com o silêncio, entrecortado de breaks; Ghost é um estudo de orientalismo, com Redman magnífico no sax-soprano (aqui em trio com Blade e Genadier). Em Insomnomaniac, Redman retorna ao tenor e usa a outra dupla de cozinha, Rogers/Hutchinson. É mais frenético, com bruscas mudanças de compasso/andamento. Fominha, Redman só dá espaço para o contrabaixo aos 7 minutos e a gente fica na vontade de ouvir mais improvisos dos parceiros. A figura de Mehldau cresce em Moonlight, precioso arranjo do quinteto para o "Adagio sostenuto" da Sonata ao Luar de Beethoven. O dois contrabaixos reconstroem o colchão harmônico da mão direita original, mas sem imitações literais. Um encanto.

 

Hora de falar de Mark Turner. Ele montou seu trio Fly 5 anos atrás, com Larry Grenadier e Jeff Ballard. A formação clona a de Sonny Rollins meio século atrás. É um desafio maior do que o enfrentado por Redman. Afinal, aqui só há duas linhas melódicas. A harmonia é uma cortina sonora virtual que acaba reconstruída pelos ouvidos de quem escuta. Por isso Turner, refinado, aposta nos arpejos como um dos recursos para dar a ilusão harmônica.

 

O CD Sky & Country (ECM) contém nove temas, todos originais: três de Ballard, dois de Grenadier e quatro de Turner. Se Lady B é convencional, a valsa transfigurada Perla Morena é excelente. O destaque, no entanto, fica com as composições de Turner. Sobretudo as duas formas mais extensas. Em Anandananda, ele faz um solo inicial a capella de 2 minutos, um costume que Sonny Rollins adora; em seguida, sucedem-se vários climas diferentes, que funcionam como pequenas seções dentro da obra. Surpreende, por exemplo, a instabilidade tonal - algo que não acontece, por exemplo, com a mais convencional porém estupenda Super Sister.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.