Um jardim de movimentos

Mauricio de Oliveira, Marina Salgado e Alessio Silvestrin emocionam com coreografia de vetores, novelos e tramas

Crítica: Helena Katz, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 00h00

Jardim Noturno, povoado por um trio, começa com Mauricio de Oliveira e Marina Salgado caminhando do fundo do palco em direção à plateia. É um momento de inauguração. O modo como se movem produz aquele tipo de beleza que, de tão física, chega a emocionar. O simbólico contido na imagem de Mauricio apoiando/apresentando/conduzindo e, ao mesmo tempo, interferindo no que Marina faz, introduz o que acontecerá ao longo da obra. Nela, quando um corpo dança com um outro, faz dele um objeto a ser dobrado, esticado, interpelado, continuado, cuidado, mas como se passasse a fazer parte. Os movimentos de um precisam dos movimentos do outro, como se um corpo, sozinho, não se bastasse.

A movimentação é uma invenção de Mauricio de Oliveira, ela mesma uma sopa de muitos saberes, sobretudo os da ioga, e dos seus muitos anos dançando com Forsythe. Os gestos vão se enovelando de modo bastante intrincado, dando nascimento a formas singulares, assinadas. O curioso é que esse novelo não se enrola sobre si mesmo, para dentro, e sim, para fora, espiralando-se no espaço. De imediato, percebe-se que há algo precioso acontecendo ali, mas a percepção precisa de um tempo até descobrir que uns vetores estranhos estão costurando os aparentes desencaixes.

 

Lembra um diagrama à la Laban (teórico da dança que explicou que as direções de nossos gestos não acabam na ponta dos nosso dedos, porque se projetam, em continuidade, no espaço). Essa característica, possivelmente, vem do convívio com Forsythe, pois Laban está muito presente na sua dança.

Mas aqui o material é outro. Esses vetores não estão somente nos corpos, mas se materializam também nos blocos, à princípio apenas brancos, que se encontram espalhados pelo chão, delimitando campos abertos. Fica por conta da nossa percepção o fechamento desses campos. Mais adiante, essas espacialidades são desmanchadas pelos bailarinos, que levam os blocos para outros lugares do palco. Mas os blocos brancos são virados e revelam as palavras escritas do seu outro lado. E a nossa percepção logo se põe a tentar fechar significados para o que vai surgindo com a nova distribuição espacial dessas agora palavras/blocos.

O que acontece com os blocos está também acontecendo com os movimentos, incessantemente convocados para combinações inusitadas. Eles mimetizam insetos, mas não apenas. Eles distendem as retas, mas não somente. Não são os hábitos que compõem este jardim.

Prólogo. Além de Mauricio de Oliveira e Mariana Salgado (cujo papel é dançado também por Thaís Clemente), quem completa o trio é Alessio Silvestrin, convidado para o projeto. Tão competente quanto os outros dois, e justamente por isso, pode-se perceber que a falta de peso tira de seus movimentos a fluência adequada, transformando-os em um prólogo do que poderiam vir a ser. Sua participação é indispensável para formar a polifonia necessária a esse contexto dos vetores de um corpo se continuando nos outros corpos, mesmo quando não dançam juntos. Separados, vão se ecoando em uma espécie de "conversa", na forma de "comentários", que cada corpo faz para o outro, após "ouvi-lo". E a "dissonância" é crucial aqui para sublinhar o que está sendo revelado.

Escrita própria. Cabe lembrar que este Jardim Noturno vem de outro, o Jardim Noturno II, de 2005, e saudar Maurício de Oliveira pela saudável atitude que já havia tomado com outra obra, o De.Gelo. Revisitar produções para delas extrair uma continuidade tem permitido o desenvolvimento de uma escrita própria.

Refazer, como se sabe, é recriar, ou seja, avançar a pesquisa pela possibilidade de distender no tempo o que pedia por mais desenvolvimento. É uma escolha sábia, que deve ser saudada por resistir à conduta habitual, que é a da produção incessante de novos trabalhos a partir somente de demandas externas, e não por uma necessidade artística.

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