Um James Bond virado do avesso

Sem perseguições, tiroteios e explosões, filme subverte o gênero ao investir em tom frio e silencioso

ELAINE GUERINI , ESPECIAL PARA O ESTADO , VENEZA , O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2012 | 03h09

Antes de se consagrar como escritor, John Le Carré atuou no serviço secreto britânico nos anos 50 e 60. Isso explica o realismo de seus romances de espionagem, muito distantes do estilo extravagante de 007, eternizado por Ian Fleming. Foi essa caracterização sutil e mais psicológica dos personagens de Le Carré que instigou o cineasta sueco Tomas Alfredson a levar às telas o livro O Espião Que Sabia Demais, num filme de agente secreto atípico - sem perseguições, tiroteios ou explosões espetaculares. "Gostei da ideia de subverter o gênero, filmando em ritmo lento e deixando a ação se passar apenas na cabeça dos personagens", diz o diretor, mais conhecido pelo terror Deixa Ela Entrar (2008).

Com estreia hoje nos cinemas brasileiros, O Espião Que Sabia Demais é um dos favoritos este ano ao Bafta, na categoria de filme britânico. O Oscar inglês terá suas indicações anunciadas no dia 17, em Londres. Até então o livro de Le Carré, publicado em 1974, só tinha inspirado uma série de TV da BBC, em 1979, e duas dramatizações na rádio BBC, em 1988 e 2009. "A obra torna o universo da espionagem acessível, fugindo da ideia do glamour, das locações exóticas e das belas mulheres. Diferentemente dos filmes de James Bond ou de Jason Bourne, ninguém termina de ler o livro ou sai da sala de cinema desejando ser agente secreto", conta Alfredson.

A trama é ambientada em 1973, durante a paranoia da Guerra Fria. O chefe do MI6 (John Hurt) é forçado a deixar o serviço de inteligência, assim que uma missão na Bulgária termina mal. Diante da suspeita de um soviético infiltrado no MI6, um espião aposentado, George Smiley (Gary Oldman), é encarregado de descobrir quem é o agente duplo. A lista de suspeitos inclui homens de confiança do governo, como o elegante Bill Haydon (Colin Firth), o burocrata Percy Alleline (Toby Jones) e o ambicioso Toby Esterhase (David Dencik).

"Pouco convencional, a história até abre espaço para a homossexualidade, algo que destoa dos espiões másculos ao quais nos acostumamos nas telas", diz Colin Firth, lembrando que seu personagem gosta tanto de mulheres quanto de homens - "dependendo de como ele pode tirar vantagem da situação". "A sexualidade sempre foi uma poderosa arma nesse mundo, da qual Haydon não ia querer abrir mão. E ele não seria bobo a ponto de eliminar um dos sexos da jogada."

Quase toda a investigação para pegar o "toupeira" (gíria da espionagem para designar o agente infiltrado) se passa em salas de arquivos, durante conversas entre agentes ou cenas de flashbacks (em circunstâncias nada excitantes). "O tom é propositadamente frio e silencioso. Procurei criar as situações com o mínimo de diálogos possível, exigindo atenção máxima do espectador à linguagem corporal e aos olhares dos personagens", afirma o roteirista Peter Straughan.

A ideia agradou o diretor, que diz aprender muito ao ver clássicos do cinema mudo. "Os personagens atuais estão cada vez mais verborrágicos, como se fosse impossível contar uma história sem abusar tanto das palavras." O veterano ator John Hurt concorda: "Os diretores precisam confiar mais no que os atores fazem no set de filmagem e não necessariamente no que eles falam".

A atmosfera de O Espião Que Sabia Demais é de pura melancolia, assim como no livro de Le Carré. "Em meu encontro com o escritor, ele me surpreendeu, pedindo que eu me sentisse livre para reinterpretar a sua obra, conservando apenas o espírito", conta o diretor.

Aparentemente o autor viu a nacionalidade sueca de Alfredson como uma vantagem. "Le Carré me disse que a adaptação de seu livro que mais o agradou foi a do brasileiro Fernando Meirelles, em O Jardineiro Fiel (2005), por trazer um olhar fresco à situação no Quênia." Outros livros de Le Carré também ganharam versões nas telas, como O Espião Que Veio do Frio, de 1965, de Martin Ritt, A Casa da Rússia, de 1990, de Fred Schepisi, e O Alfaiate do Panamá, de 2001, de John Boorman. "A boa adaptação é a que dá sangue novo ao original. Mas chegar lá não é um caminho tão óbvio", acrescenta Alfredson.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.