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Mario Vargas Llosa
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Um intelectual catalão

Joaquin Forn nos lembra que existe um território no qual podemos fazer amigos

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2019 | 03h00

Na Feira Internacional do Livro de Guadalajara (México), um amigo me deu um livro dedicado ao processo pró-independência e eu disse a ele que eu estava até o pescoço com esse assunto e que parei de ler as notícias na imprensa desde que o Supremo Tribunal proferiu a sentença, condenando aqueles que tentaram emancipar a Catalunha da Espanha, violando a Constituição. “Não é o que você imagina”, ele insistiu. “O autor é contra a independência e ainda defende Joaquim Forn. Garanto que você vai se interessar.”

Comecei a folhear El Encargo, de Javier Melero, naquela mesma noite, certo de que ficaria entediado na segunda página, mas duas horas depois eu ainda estava lendo. E continuei dois dias depois, no avião que me levou à Guatemala, onde a quantidade de compromissos me impediu de continuar lendo, mas consegui terminar na viagem a Miami. E agora eu recomendo especialmente aos leitores que estão cansados de ouvir falar sobre o processo catalão. O livro de Melero lida com ele, é claro, mas de maneira tão livre, sem protetores de ouvido, com tanta graça e personalidade, e em um espanhol tão preciso, que nada se desperdiça.

Quem é Javier Melero? Pelo visto, um ilustre criminalista catalão, que lecionou na Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, e foi parceiro de escritórios de renome internacional. Mas, acima de tudo, ele é um escritor divertido, espirituoso, engraçado e feroz, que conta as coisas relacionadas ao movimento pela independência e ao julgamento que resultou disso, com total simplicidade, sem lhes dar muita importância, convencendo seus leitores de que elas também não a tinham, porque tudo isso faz parte do histórico frenesi espanhol, muito barulhento e de pouquíssimas nuances.

É contra o movimento pela independência, de fato, mas sem paixão e até com certo tédio, porque ele odeia tudo o que tem a ver com hinos e bandeiras e, por exemplo, chama seus amigos pró-independência, provocando-os, de “os mártires do processo” e coisas piores. Mas não é menos severo com os chamados “espanholistas” e, em geral, seus disparos mais mortíferos são contra seres apaixonados e militantes de qualquer coisa, porque eles turvam a vida e nos separam das coisas agradáveis que ela tem, como cigarros, boxe, os filmes, os livros, o Dry Martini e uma boa refeição. Seus amigos cobrem toda a arena ideológica e, por exemplo, entre os adversários da independência catalã, não há ninguém menos que Arcadi Espada, com o qual ele janta no livro e, além disso, assina um manifesto conjunto quando a Generalitat tenta processá-lo para um artigo.

Isso me lembra muito dos intelectuais catalães que conheci em Barcelona, nos anos em que morei lá entre 1970 e 1974, muito cultos e atualizados, um tanto frívolos, sempre irônicos e sofisticados, que, à maneira de Josep Pla, não acreditava em nada e zombavam de tudo, exceto talvez da cultura. Eles desapareceram subitamente quando um punhado de “independentistas” se multiplicou e começou a encher as ruas e avenidas da cidade. Fico feliz que pelo menos um deles esteja vivo e escrevendo, porque eles constituíram uma espécie que tornava a vida divertida, injetavam ideias e poses engraçadas e pegaram as letras e artes de academias e seminários e as exibiram em cafés, bares e discotecas.

O livro de Melero transcorre dentro do julgamento dos processos, mas, em vez de lidar com o que está acontecendo, ele se concentra alegremente nas minúcias e nas ninharias marginais, como as roupas usadas pelos promotores, juízes, advogados e testemunhas, e a expressão em seus rostos nos momentos mais graves, bem como as conversas que os ocupam nos intervalos, e tudo isso com uma engenhosidade tão sutil e pertinente que, de alguma maneira é difícil de definir, mas inequivocamente, traz à luz tudo o que o famoso processo gostaria de esconder. Suas vinhetas de personagens são memoráveis e resgatam ou enterram pessoas de ambos os lados; está interessado em roupas e elegância, na seriedade e no sorriso em seus rostos, na maneira como se expressam, em suas piadas, em seus humores e em suas transformações ao prestar seu testemunho perante a Corte.

Toda uma sociedade pitoresca aparece lá, na qual existem pessoas sérias, eminentes e os costumeiros idiotas, contra os quais é geralmente implacável, porque entre todos os horrores deste mundo, o que Javier Melero não tolera é a estupidez dos seres humanos, por exemplo a das testemunhas que, sem perceber, dão depoimentos que favorecem seus adversários.

Sua profissão lhe interessa, é claro, mas, mais do que para exaltá-los pelas grandes causas, o Estado, a Liberdade, a Democracia, como um jogo arriscado e sutil, no qual talento - ou seja, o conhecimento, o esforço, a manipulação de armadilhas - determina vitória ou derrota. Ele não tem nenhum problema em traçar uma linha de defesa de seu cliente que não necessariamente coincida com a dos advogados dos outros réus, mas tenta, se possível, não interferir com seus advogados, embora às vezes isso aconteça.

Conhece tanto Madri como Barcelona, sua cidade, que, em um momento surpreendente de seu livro, lhe arranca algumas frases sentimentais, sobre aquele canto da Diagonal onde ele passou a infância, um lugar onde todas as lojas faliram e agora é um canto tão movimentado e bem-sucedido como a Quinta Avenida ou a Champs Elysées. Em Madri, ele vai ao Retiro e conhece a história dos grandes edifícios, quem e quando os construiu, e os bons menus das tascas mais escondidas.

Ele deve ter pulmões acarpetados com nicotina, mas não se envergonha em absoluto do prazer de fumar, e do boxe não apenas conhece de memória todas as vidas e lutas dos grandes boxeadores, mas também dá e recebe socos periódicos no ginásio que frequenta. Os filmes que ele cita são de ótima qualidade assim como os livros, mas diríamos que esses lhe interessam mais que o último. Talvez eu esteja errado, porque não escreveria tão bem se fosse assim: todos os bons escritores são leitores ávidos.

A ironia é geralmente uma faca de dois gumes, uma maneira de dar menos importância ao que está sendo falado, de reduzir a mordacidade ou o veneno que ela contém, mas em Javier Melero é simplesmente uma maneira de se expressar, algo que faz parte de seu ser, e é por isso que nos parece natural e inevitável, uma maneira de ver as coisas, de descobrir o que há nelas e nas pessoas o que há de mais secreto, de esquadrinha-las. E, também, entregar-lhes uma corrente de simpatia, amizade, algo que, acima ou abaixo das diferenças, os aproxima e irmana.

El encargo é um daqueles livros raros, especialmente em nosso tempo, que eleva nossa moral, que não escamoteia as grandes diferenças que separam as pessoas em temas religiosos, políticos ou de gostos e costumes, mas nos lembra de todas as coisas que compartilhamos, e que, acima das diferenças, existe um vasto território no qual podemos nos entender e até fazer amigos e nos amar. Há muito tempo eu não lia um livro tão equânime, saudável e simpático. Esses adjetivos teriam afundado na ignominia qualquer livro que caísse em minhas mãos há alguns anos. Mas Javier Melero me fez refletir e ficar convencido de que um livro bom também pode ser uma excelente literatura. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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