Imagem Milton Hatoum
Colunista
Milton Hatoum
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Um inseto sentimental

A primeira frase da crônica é quase sempre a mais difícil, mas quando as palavras aparecem no papel, a mão que segura a caneta fica mais leve e envereda para um lugar desconhecido...

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2013 | 02h10

Mas basta surgir um inseto para mudar toda a história: o movimento da mão é interrompido pelo intruso, que voa em círculos e zoa com insistência, uma picada no pescoço ou no braço pode acabar com a alegria de escrever uma crônica, mesmo sabendo que vou reescrevê-la quatro ou sete vezes; talvez seja melhor espantá-lo com uma revista, ou esperar que ele se canse de girar e zumbir como um louco nesse espaço pequeno.

Pode ser uma fêmea, não sei precisar o sexo dos insetos; não é varejeira, nem abelha ou besouro comum, tem um olhar estranho, e as asas ambarinas revelam uma delicada trama geométrica, que lembra uma teia de aranha.

Deixo a caneta na mesa, pego ao acaso uma revista e tento afugentar o intruso: que ele nos deixe em paz, eu e a ideia da crônica, a mão direita e as palavras, a razão e a emoção, mas o maldito parece zombar de tudo isso e descai do teto numa investida ousada que roça minha testa. Agora está claro que ele quer me perturbar, não há mais silêncio, já me desconcentrou, apagou a ideia da crônica e me deixou como um idiota, segurando uma revista de arquitetura com belos projetos em Guarulhos e no Rio, Artigas e Reidy, os olhinhos cor de ferrugem, patas pretas e um ferrão de fogo, se esse pequeno monstro me picar, adeus à crônica e à leitura de Gogol.

Apago a lâmpada, talvez ele se acalme na penumbra, às vezes a claridade é nociva e a opacidade, necessária. Mal consigo enxergá-lo, é apenas uma serpentina escura dançando no espaço, sigo os movimentos desse voo bêbado e hostil, tento entender meu inimigo e perdoá-lo, antes que a revista o golpeie e ele caia no chão, e logo uma pisada sem piedade e um chute para o pequeno jardim.

Acho que me entendeu, pois voa em silêncio, afasta-se de mim, procura em vão a luz da lâmpada e depois ronda a porta estreita, ali perto da romãzeira florida e da liberdade.

O voo lento pode ser uma trégua, e, pensando bem, o inseto não é tão ameaçador assim; recordo o trançado do desenho das asas, agora os olhinhos perderam o brilho, o ferrão é invisível na penumbra. De repente, um voo rápido em espiral, e a três palmos do assoalho ele se equilibra no ar, helicóptero perfeito, e uns segundos depois navega na horizontal até um dos cantos do quarto, onde se refugia numa caixa de papelão.

Acendo a lâmpada, me aproximo da caixa e vejo meu ex-inimigo no centro de uma fotografia antiga. Quieto, ferrão e asas recolhidos, repousa no rosto de uma mulher ainda jovem, que sorri para a lente do fotógrafo. Pego com cuidado a foto, saio do quarto e, com um sopro, o inseto some na tarde morna.

Minha mãe me abraça numa manhã de 1960: nós dois aninhados no banco da Praça da Matriz, aonde me levara para ver o aviário e conversar com os pássaros. Lembro-me de que ela morreu há quatro anos, e devo essa lembrança ao inseto estranho e sentimental, que me roubou a ideia de uma crônica, mas me deu outra.

Agora, quando já escurece, é pegar a caneta e escrever a primeira frase, quase sempre a mais difícil...

Tudo o que sabemos sobre:
Milton Hatoum

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.