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Humberto Werneck
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Um idealista incurável

 Paris é desses lugares aonde você chega e se dá conta de que chegou com atraso. Para não descer mais fundo – à década de 1920, quando os jovens Hemingway e Fitzgerald não precisavam de muita grana para se esbaldarem às margens do Sena –, eu diria que fiz minha estreia com dois anos de retardo. 

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

12 Maio 2015 | 04h00

Gostaria de ter desembarcado no Quartier Latin a tempo de viver a grande febre da rebelião de Maio de 1968. Aos 23 anos, talvez até me animasse a jogar uma pedra na polícia. De algum modo, acataria a velha palavra de ordem dos parisienses: en mai, fais ce qu’il te plaît, fazendo em maio o que me desse na telha. Mas é dessas coisas que você nunca mais – como aquilo que, no mesmo ano, se passou com o camarada Caio Fernando Abreu: integrante da primeira equipe da Veja, o Caio foi incumbido de cobrir a última viagem do último bonde de São Paulo – e perdeu o bonde.

Perdi o bonde da mais inesquecível primavera de Paris. Quando cheguei, em 1970, já não havia barricadas, e boa parte dos pavés – os cubos de pedra do calçamento das ruas, arrancados pelos enragés para encarar a polícia –, fora prudentemente recoberta de asfalto. No ar que estivera impregnado de gás lacrimogêneo, pairava agora uma ressaca cívica.

A cada novo maio me bate a nostalgia daquele tão especial. Sentimento que, neste agora, incorpora o gosto ruim de saber que François Maspero já não vive. Foi-se, semanas atrás, aos 83 anos. 

Quem? A menos que você venha, como eu, da Idade Média, é bem provável que jamais tenha ouvido falar dessa figura extraordinária, cuja complexidade não caberia nos rótulos de editor, livreiro e autor, as atividades com que ganhou a vida. Ou melhor, o sustento, pois a vida, no sentido maior, Maspero ganhou-a com o gás inextinguível de um idealismo que a tudo resistiu – a começar pela perda do irmão Jean, combatente antinazista, e do pai, num campo de concentração. 

Nascido em 1932, François Maspero dizia ter vindo ao mundo 12 anos depois, quando, no verão de 1944, a Gestapo invadiu o apartamento da família, e, não encontrando Jean, levou os pais para um pesadelo do qual só a mãe retornaria. O horror que François experimentou naquele dia haveria de pautar sua vida de impenitente defensor da liberdade. 

Foi pensando nela que aos 22 ele abriu uma pequena livraria, L’Escalier, e, dois anos mais tarde, uma segunda, a La Joie de Lire – a alegria de ler –, no número 40 da rua Saint-Séverin, legendária casa que, extinta há quatro décadas, faz parte do patrimônio sentimental de quantos a frequentaram. Mario Vargas Llosa conta que ali esteve no mesmo dia em que, aos 22 anos, chegou a Paris para morar, e comprou o livro, Madame Bovary, que mudaria sua vida.

Conheci La Joie de Lire a poucos anos de acabar, e a ebulição reinante não deixava supor que isso poderia acontecer. Não era uma livraria como as demais. Qual outra, por exemplo, naquela cidade de livrarias, acolheu feridos e virou abrigo para militantes perseguidos no fragor de maio de 1968? 

A partir de 1959, a casa foi também editora, de cujos prelos saíam livros e revistas que incomodavam conservadores à direita e à esquerda. François Maspero, que transitou pelo Partido Comunista e por uma liga trotskista sem sentir-se à vontade em nenhuma dessas organizações, era libertário também como editor – e pagou por isso. Durante a guerra da Argélia, sua livraria sofreu atentados a bomba. A editora teve vários títulos proibidos e, empencada de multas, experimentou a asfixia que haveria de levar o dono a abandonar o barco, vendendo sua parte, em 1982, por simbólico 1 franco. 

A livraria acabou bem antes, em meados da década de 1970. Quando a conheci, era alvo sobretudo de uma extrema-esquerda que via Maspero como nefasto “comerciante permanente da revolução” – logo ele, que se recusou a vender a enxurrada de títulos produzidos no rastro do maio de 1968, por não ver nela mais que um caça-níqueis do pior capitalismo. Não entrou naquela onda. Um editor, dizia, define-se também por aquilo que não edita.

Na sua livraria se podia roubar à vontade, enchendo sacolas à vista de vendedores impassíveis, já que o patrão se recusava a fazer o papel de polícia. Acreditava que essa diretriz criaria um constrangimento ético. A desilusão não o fez mudar de lado, nem crer que, finda a guerra fria, tudo se dissolveu numa geleia geral. Fim das ideologias? Já próximo da morte, François Maspero sustentava que é esta, exatamente, “a pior das ideologias”.

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