Um homem triste encarna o sonho americano

Leonardo DiCaprio fala sobre O Grande Gatsby, que abre Cannes no dia 15

CINDY PEARLMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2013 | 02h06

"Todos podemos nos reconhecer no sonhador que existe em Gatsby", diz Leonardo DiCaprio. "Ficamos excitados com a perspectiva de alguém com tamanha ambição. Nós nos identificamos com alguém assim." O ator sabe disso em primeira mão. Além da boa aparência, do charme e talento, é preciso mais do que um pouco de ambição para chegar onde ele chegou, com três indicações para o Oscar e a glória de ser um dos astros mais populares do mundo.

DiCaprio é uma figura marcante, o terno azul impecável, os belos cabelos esticados para trás. "Quando comecei, não tinha roupas muito bonitas", recorda ele, que começou como ator infantil. "Eu me sentia um estranho em Hollywood, onde todos eram perfeitos. Isso sempre me estimulou. Fez eu me esforçar cada vez mais." Ele fala de outro batalhador, Jay Gatsby, o memorável personagem criado pelo romancista F. Scott Fitzgerald e interpretado por Robert Redford em O Grande Gatsby (1974) e por DiCaprio na refilmagem suntuosa de Baz Luhrmann. "Para mim, isso é Shakespeare americano. É um dos romances mais célebres de todos os tempos. Isso é excitante e assustador."

O Grande Gatsby de Luhrmann, que abre dia 15 o 66.º Festival de Cannes, tem Tobey Maguire como Nick Carraway, o candidato a escritor que chega do meio-oeste a NY em 1922. Na esperança de se tornar o próximo grande romancista americano, ele acaba engolfado pelos anos 20, a era de moralidade frouxa, chefões do contrabando, festas suntuosas e escalada das ações das empresas, uma época notável tanto pela riqueza incrível de alguns americanos como pela pobreza abjeta de outros.

Nick acaba vivendo em Long Island e passa as noites espiando de sua janela o outro lado da baía com as luzes cintilantes das festas extravagantes de Jay Gatsby (DiCaprio), um misterioso milionário que está apaixonado por uma prima de Nick, Daisy (Carey Mulligan), a despeito de ela ser casada com o mulherengo e aristocrático Tom Buchanan (Joel Edgerton). Nick logo se vê atraído para a órbita de Gatsby, observando impotente enquanto o charmoso e implacável Gatsby conduz Daisy, Tom e ele próprio ao desastre.

Em entrevista, Luhrmann diz que DiCaprio - que fez Romeu no Romeu + Julieta (1966) baseado em Shakespeare do diretor australiano - foi sua primeira escolha para viver uma das figuras mais misteriosas de toda a literatura americana.

"Era um personagem incrível. O homem é a manifestação do sonho americano. O Gatsby que li aos 15 anos era diferente do que li depois de adulto", prossegue DiCaprio. "Eu me lembro daquele romântico incorrigível apaixonado por aquela mulher. Ele criou sua riqueza só para segurar a mão dela." Não será esse, porém, o Gatsby que os espectadores verão neste novo filme.

"O romance é cheio de nuances. No centro, está esse homem vazio, buscando um sentido para a sua vida. Ele se ligou a essa relíquia que é Daisy", ressalta o ator. "Fiquei chocado com a tristeza dele. Ali estava um homem preso a uma imagem, e ela foi a sua ruína."

Faz 88 anos que o romance de Fitzgerald chegou às livrarias, mas DiCaprio acha que Gatsby continua relevante. "Todos têm alguma relação com o personagem, que se formou de acordo com sua imaginação e seus sonhos. Gatsby era um jovem pobre do meio-oeste e criou essa imagem de que era 'o Grande Gatsby'. É uma história genuinamente americana. É o sonho americano", afirma.

Hoje, o ator vê a relação de Gatsby com Daisy de maneira diferente de como a via na mocidade. "Ele estava realmente apaixonado por ela ou pelo que ela representa? Seria ela apenas um sonho também?", questiona. "O incrível nesse romance é que cada um tem a própria interpretação de quem são esses personagens", acrescenta DiCaprio. "É isso que torna difícil fazer um filme sobre ele. Cada um sente que conhece esses personagens intimamente."

"Eu me lembro do primeiro dia de filmagem", revê o diretor. "Estávamos nervosos. Sentíamos que o desafio era muito grande. Durante essa primeira cena, Gatsby está esperando com Nick a chegada de Daisy. Eu estava fazendo uma panorâmica, disse 'Ação' e pedi para meus atores improvisarem. Leonardo afirmou: 'Acha que as flores estão adoráveis? Acha que está excessivo?", continua Luhrmann. "Tobey Maguire para e avalia: 'Acho que está como você deseja'. Esse é um dos grandes momentos do filme. Vem de uma relação profunda que existia antes desse trabalho." Leonardo DiCaprio acredita que o coração do filme é a amizade entre Nick e Gatsby.

"Ter alguém que eu conheço há 20 anos, como Tobey Maguire, foi incrivelmente reconfortante. Nós somos muito francos um com o outro. Não sei se o projeto existiria se não tivéssemos esse relacionamento."

O seu próximo filme é The Wolf of Wall Street, de Martin Scorsese. No quinto trabalho com o diretor, o ator é Jordan Belfort, o corretor de ações de NY que foi o pivô de um caso de fraudes com ações em grande estilo. Como sempre, porém, continuará a dedicar boa parte de seu tempo à militância ambientalista e obras humanitárias: em 2010, DiCaprio doou mais de US$ 1 milhão para vítimas de terremotos, e, em 2011, US$ 1 milhão para a Wildlife Conservation Society.

Na verdade, ele enfatiza, esses esforços se relacionam com seu trabalho no cinema, e em especial com O Grande Gatsby.

"De várias maneiras, esse livro previu o grande crash dos anos 1930 nos Estados Unidos", conclui o ator. "Ele fala da grande opulência e riqueza na América e a ideia de que o futuro é imutável. Não podemos continuar consumindo sem sofrer consequências. Vemos isso sempre, mas será que jamais aprenderemos?" / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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