Um homem e suas contradições

Já faz 30 anos que ele nos deixou, o homenzinho extenuado que se via caminhar penosamente, ao anoitecer e à noite mesmo, pelas ruas de Montparnasse, desajeitado, debilitado, cego e agarrado ao braço de uma jovem devotada à sua fraqueza. "Está vendo", dizia ele sorrindo para sua companheira, Simone de Beauvoir, "é um espanto como eu faço sucesso com as senhoritas desde que fiquei velho e cego." Será que ele faz o mesmo sucesso com jovens de 2010? Será que ainda o conhecem? Leem seus livros? Procuram uma bússola em sua obra? Quando vivo, ele gozava uma celebridade inaudita. Essa foi a primeira contradição desse homem tão racional que passou a vida se contradizendo. Muito jovem, na École Normale Supérieure, ele expressou seu desprezo pelo conceito de "grande homem". Ora, o que ocorreu em seguida? Durante a Guerra da Argélia, oficiais pediram a De Gaulle, então chefe de Estado, para perseguir Jean-Paul Sartre (1905-1980), que havia convocado os jovens à "insubmissão". Resposta do general De Gaulle: "Não se prende Voltaire!" Passaram-se alguns anos e Sartre ganhou o Prêmio Nobel de Literatura (1964).

Gilles Lapouge. Correspondente em Paris, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

Ele o recusou. Não podia fazer escala em um país qualquer sem que os estudantes o aclamassem. Quando ele morreu, seu funeral no cemitério de Montparnasse, em Paris, foi assistido por uma multidão cosmopolita, por vezes em lágrimas. Desde Victor Hugo, nenhum cemitério francês conhecera semelhante delírio. Voltaire, Victor Hugo, o Prêmio Nobel: confessemos que, para um homem que sempre recusou o conceito de "grande homem", Jean-Paul Sartre errou o alvo.

Ele errou outros alvos. Teria conseguido ao menos sua sobrevivência literária? Neste momento, ele está apagado. Ele se distanciou. Esse distanciamento se explica. Sartre, desde sua juventude, ou melhor, as partir dos 25 anos (não antes), instalou-se no coração da sociedade dos homens, de sua tragédia. Ele se fundiu a ela. Em vez de elaborar uma obra altiva, glacial e refugiada nas alturas impassíveis da filosofia ou da literatura, ele quis ser ao mesmo tempo o "contemporâneo" de todos os homens, o "vigia", a testemunha e o combatente das lutas de seu tempo.

Mas esse tempo se foi. Já não existe. Os combates da segunda metade do século 20 se extinguiram. Tudo aquilo foi varrido como folhas de outono pelos ventos da História. Os gritos, as indignações ou os entusiasmos de Jean-Paul Sartre foram levados com a época em que eles foram proferidos. Quais foram as grandes causas que Jean-Paul Sartre defendeu, combateu ou ilustrou? O comunismo, a guerra fria, a descolonização, o 3º Mundo, Cuba. Tantos cadáveres, tantas recordações mortas e que vão recuando, recuando...

Sartre empenhou sua honra em "esposar" seu tempo. Não espanta que ele tenha naufragado no mesmo momento em que esse tempo expirava, na virada dos anos 1990.

Circunstância agravante: Sartre não só se bateu como um Dom Quixote contra moinhos de vento que deixaram de girar havia muito tempo, como ainda se equivocou com uma constância, com uma regularidade surpreendente. Para se equivocar o tempo todo e com tal talento, sem dúvida, é preciso um faro que beira a genialidade.

Ele foi sempre do contra, sempre na contramão: antes da guerra, jovem superdotado, ele só queria conhecer o pensamento, a literatura, a filosofia. A política? Bá! Isso é coisa para simplórios. Ele lia Voltaire, Faulkner, Dos Passos. Ele foi a Berlim estudar os filósofos alemães (Husserl, Hegel, Heidegger) e não via nada. Hitler, não conheço! A guerra de 1939. Ele serviu no ridículo corpo de "meteorologia militar": assim, em vez de se arrastar na lama, ele passou a guerra com os olhos no céu, nas nuvens. Veio o debacle francês, a invasão nazista.

Político. Ele teria se comovido? Seja como for, enquanto Camus e Malraux lutavam na Resistência, Sartre escrevia seu enorme tratado de filosofia L"Etre et le néant (O Ser e o Nada) nas mesas do Café de Flore. Para que ele despertasse para o "político", e como um furioso, seria preciso esperar 1945. Essa nova paixão não o abandonaria mais. Dali em diante, ele estaria em todos os combates. Mas quais combates? Ele fazia ziguezagues. No começo, foi de uma esquerda não comunista. Depois, ei-lo "companheiro de estrada" e companheiro frenético: "O marxismo é o horizonte intransponível deste tempo", vaticinou.

Ele era antiamericano e anticolonialista, mas, aqui também havia um paradoxo ou um equívoco. Ele se tornou inimigo frenético do general De Gaulle, que era, no entanto, o "grande descolonizador" francês e o campeão do antiamericanismo (saída da Otan, denúncia da Guerra do Vietnã ...) Não se terminaria de enumerar as mancadas do grande Sartre que culminaram em sua grotesca virada para Cuba porque ele havia compreendido que lá, nos Trópicos, estava se construindo a felicidade da humanidade! A velhice chegou. Chegaram também as revoltas de maio de 1968. E lá estava Sartre despertado com sobressalto de seu "sono dogmático".

Aqueles estudantes o encantaram. Ele se meteu em suas escolas, ouviu suas lições, admirou seu saber. Ele compreendeu que os comunistas eram "nulos" e que era preciso inventar uma nova extrema esquerda trotskista, ou maoista, ou libertária, pouco importava, desde que fosse extrema. Em Billancourt, viu-se o velho encurvado sobre um tonel, diante das fábricas Renault, pregando a revolta absoluta para operários que não compreendiam nada daquilo. Muito patético. Muito belo. Depois, a cegueira. A decadência. Uma decadência nobre. Sartre não podia mais escrever. Ele falava e falava.

Conclusões: em política, isto é, no campo em que ele investiu mais passionalmente, maciçamente, o balanço é uma catástrofe. Com uma dialética prodigiosa, uma linguagem admirável, ele se equivocou em tudo, enquanto seu pequeno camarada da École Normale Supérieure, Raymond Aron, com o estilo mais sem graça do mundo, viu quase tudo.

Estruturalismo. Mas, então, onde está a genialidade de Sartre? Em sua literatura? Em seu pensamento? Seu pensamento é poderoso. Mas surgiu um grande problema para esse pensamento quando apareceram os chamados "estruturalistas": Claude Lévi-Strauss, Roland Barthes, Michel Foucault, Louis Althusser. Um pensamento novo se alçava à glória: se o de Sartre estaca atravessado de lado a lado pelo conceito de "História", os estruturalistas tiram a História de campo. Eles só reconheciam o "sistema". Nada de "sujeito". O choque foi rude. Sartre já não tinha a supremacia.

Resta a literatura, mas, aí também, o balanço, por brilhante que seja, é desigual. Sartre se consagrou no teatro. Sua primeira peça, Huis Clos (Entre Quatro Paredes), é genial, as outras são fortes, mas embaladas em formas herdadas daquele século 19 "burguês" que ele detestava.

Os romances? Uma obra-prima: seu primeiro livro, La Nausée (A Náusea). Depois, Les Chemins de la Liberté (Os Caminhos da Liberdade), um belo esforço, mas uma forma do século precedente e ele se atrapalhou ao ponto de não conseguir nem sequer terminá-lo. Ele se recuperou tarde com um pequeno grande livro, Les Mot (As Palavras), no qual nos fala de sua infância, de sua formação. Genial. Geniais também as biografias que consagrou a alguns escritores - Baudelaire, Jean Genet (Saint Genet) e, sobretudo, Flaubert, L"Iidiot de la Famille (O Idiota da Família), monumento monstruoso de 2 mil páginas que permanecerá, sem dúvida, como sua maior obra.

Aposta. Será possível esboçarmos uma tentativa de explicação? Como um tal gênio produziu na ação, no pensamento ou nas "palavras" tantas obras-primas malogradas? Bizarramente, esse homem que devia ter sido um "vigia do presente e do futuro" não compreendeu nada de seu tempo. Ele vasculhava as nuvens e os céus da véspera. Ele perdeu sua bela aposta porque nunca chegou a verter sua arte, seu pensamento, nos moldes da modernidade. No teatro, ele escrevia como Alexandre Dumas ou Scribe no mesmo instante em que Brecht, Antonin Artaud, Beckett, Ionesco, Adamov inventavam o teatro moderno. No romance, admirava Faulkner ou Joyce, mas escrevia como Roger Martin du Gard ou Paul Bourget.

Último paradoxo: esse homem cujo gênio radiante teve tanta dificuldade em se encarnar, esse escritor cujas análises luminosas eram tão frequentemente equivocadas, tolas até, nos tocava, contudo. O adeus que o povo de Paris lhe deu no cemitério de Montparnasse numa antiga primavera, as lágrimas que homens e mulheres de Estocolmo ou Marselha, de Boston ou Madri verteram naquele dia eram justas.

Esse homenzinho havia sido uma das figuras mais tocantes de seu século. Seu coração era o coração pulsante do tempo. Ele havia escolhido a coragem e a generosidade, mas se extraviou nos labirintos de uma época "insensata". Ao menos, quer seja em seus engajamentos políticos delirantes, ou na sua ambiciosa filosofia, em sua literatura também, ele sempre jogou o grande jogo. O que torna grande seu fracasso. Outros que jogaram jogos menores que ele conservaram melhor seu rumo.

Jean-Paul Sartre por vezes triunfou e com frequência fracassou. Mas mesmo seu fracasso foi grandioso. E quem sabe se num outro tempo, um tempo ainda mascarado pelos ouropéis de nosso jovem século, não verá resplandecer de novo, em sua glória, a visão do grande Sartre? / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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