Um homem de palavras, paisagens e pássaros

Museu da Língua Portuguesa abre amanhã mostra sobre Rubem Braga

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2013 | 02h18

Foram 77 anos de vida e 62 de profissão. O resultado: uma coleção de 15 mil crônicas escritas para veículos diversos, uma cobertura de guerra, uma cobertura com vista para o Rio de Janeiro, uns tantos passarinhos e amigos que visitavam com frequência. Nas comemorações pelo centenário de nascimento do escritor capixaba Rubem Braga (ele nasceu em 12 de janeiro de 1913), o brasileiro terá a oportunidade de conhecer ou reencontrar - agora não apenas por meio de seus textos - um dos maiores cronistas do País. Ele é tema de exposição que o Museu da Língua Portuguesa abre amanhã para convidados e na terça para o público.

Esta é a segunda parada de Rubem Braga - O Fazendeiro do Ar, em cartaz em São Paulo até 2 de setembro. A mostra acaba de deixar o Palácio Anchieta, em Vitória, onde foi visitada por 20 mil pessoas. No museu paulista, os números devem ser superlativos. Pela exposição anterior, dedicada a Jorge Amado, passaram 159 mil pessoas. São cerca de 1.500 visitantes por dia - quase todos estudantes. Daqui, ela segue para o Rio de Janeiro, em outubro, e depois para Cachoeiro do Itapemirim, a cidade natal do homenageado. A ideia é que a casa da família Braga se transforme em um centro de memórias e que parte dessa mostra fique lá permanentemente.

Com curadoria do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos e cenografia de Felipe Tassara, a exposição pretende mostrar as várias faces de Rubem Braga e, logo na entrada, um grande painel com reproduções de fotos 3x4 do escritor anuncia essa intenção. Nos 392 m², o visitante conhecerá o jornalista, o correspondente de guerra, o dono da cobertura mais mítica do Rio de Janeiro, o amante dos passarinhos e o menino que deixou Cachoeiro, mas que levou a cidade para seus textos.

Interativa, a primeira sala é a Redação - a preferida do curador. Forrada com jornal do chão ao teto, ela abriga dez grandes mesas com máquinas de escrever de verdade - objeto tão característico de uma redação de jornal ou de revista pré-computador, e desconhecido de muitos jovens, que são o público-alvo da exposição. Nessas máquinas, em vez de folhas, ou laudas, há tablets acoplados. Basta bater numa tecla e logo uma crônica começa a aparecer na tela, como se estivesse sendo digitada ali, letra por letra, na frente do visitante. Imagens também são exibidas nesses tablets. Quem quiser abrir as gavetas, é só ficar à vontade. Em cada uma delas, uma surpresa - em foto ou texto -, e uma crônica para levar para casa.

Dali, eles seguem para a sala Guerra, também ela forrada com os jornais da época. Rubem Braga foi correspondente do Diário Carioca na Itália, durante a 2ª Guerra Mundial, e guardou todos os bloquinhos de anotação. Nesta sala, há telefones antigos. Ao tirar o fone do gancho, ouve-se a gravação original de notícias do período.

Do ambiente preto e branco dos dois espaços que retratam o período em que Rubem Braga foi jornalista para o colorido de sua cobertura em Ipanema, onde o escritor viveu a partir de 1963 na companhia dos passarinhos de que tanto gostava, no jardim projetado por Burle Marx que ele foi, aos poucos, modificando - tirando uma planta aqui e plantando árvores frutíferas acolá. Há até mangueiras no quintal situado no 13.º andar. O ambiente está tal qual seu proprietário o deixou quando morreu, em 1990. Quem vive lá é o filho Roberto e sua mulher, que abriram as caixas da família para que os organizadores procurassem materiais que ajudassem a dar conta da personalidade do Velho Braga e garimpassem raridades, como uma foto no front italiano - há, ainda, material do acervo da Casa de Rui Barbosa.

Era ali, também, que o escritor recebia os amigos, uma turma de peso: Vinicius de Moraes, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Sergio Porto, Chico Buarque, entre tantos outros. Fotos de Paulo Garcez, que se emocionou ao voltar à cobertura para gravar o vídeo para a mostra, são vistas pelas paredes do museu, onde estão, também, retratos de Braga pintados por Portinari, Carybé, Caymmi, Scliar.

Além de Garcez, deixaram seus testemunhos Zuenir Ventura, Danuza Leão, Ana Maria Machado e Ziraldo, entre outros. Fernanda Montenegro também colaborou com a leitura de uma das crônicas do homenageado. Tudo isso - e ainda um grande painel que se espalha por três paredes com a vista da cobertura - o visitante pode ver sentado numa das poltronas da sala que tenta fazer um inventário sentimental do autor.

Sobre a cabeça dos visitantes, origamis de aviões de guerra e, depois, de passarinhos, que vão encaminhando o público para um dos espaços mais interativos e que fez sucesso em Vitória: a instalação O Conde e o Passarinho. Imagens de pássaros são projetadas na parede e basta parar a mão na frente para um deles pousar nela. Encerrando a mostra, caixas de madeira com imagens da cidade natal do escritor dentro. A ideia é mostrar suas origens.

Joaquim Ferreira dos Santos conheceu Rubem Braga, de quem já era leitor - por causa da revista Manchete, que seus pais compravam quando ele tinha 15 anos -, numa festa do escritor e psicanalista Hélio Pellegrino. Trocou umas poucas palavras com ele, que estava sentado, sério como sempre, num canto com seu uísque na mão. Nunca mais se viram, mas teve a chance de voltar agora ao universo do capixaba. Apresentar, num espaço grande mas insuficiente, a vida e a obra de uma pessoa não foi fácil. "Ainda mais ele sendo um escritor, uma pessoa que sentava e escrevia, que vinha de uma geração mais antiga quando não havia toda essa parafernália midiática", comenta.

Não encontrou, porém, dificuldade em escolher os textos. "É tudo muito bom. Rubem Braga quer se comunicar com o leitor e usa para isso uma aparente simplicidade. Faz um texto prazeroso, com humor. E o melhor é que ele passa a impressão de que escrever é fácil, e aí você escreve." O curador acredita que a crônica é uma boa maneira de mostrar aos jovens que ler não é penoso. "Aconteceu comigo, pode continuar acontecendo."

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