Um homem de muitas ideias, mas sem mudar de opinião

Uma visita com Augusto Boal, ciceroneando artistas franceses ao terreiro de Olga de Alaketu, respeitada mãe de santo, em Salvador, é para mim a imagem síntese dele como o praticante do sincretismo artístico. Homem de esquerda, versado na obra politica de Brecht, ele ao mesmo tempo adotou o psicologismo interpretativo de Stanislavski que aprendeu no Actor's Studio de Nova York (Boal fora aos Estados Unidos estudar engenharia química e deixou o curso pelo teatro). Do Brecht da primeira fase, captou o estilo didático e musical que seriam seus instrumentos fundamentais como autor de alegorias políticas com um fundo de comédia de ideias, explícitas em A Revolução na América do Sul (a versão original passava-se em um circo). O gosto por enredos panorâmicos em que múltiplas facetas da realidade está em peças que - na sua definição - parecem "quebradinhas", ou seja, recheadas de cenas, músicas, tipos humanos esboçados em traços rápidos que seriam uma de suas marcas autorais.

ANÁLISE: Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2013 | 02h21

A dispersão do conjunto é aparente porque Boal sempre manteve o poder de síntese do engenheiro que domina a química teatral. Assim foram surgindo os musicais políticos. Primeiro, o show protesto Opinião, que juntou a doçura de Nara Leão e a dramaticidade de Maria Bethânia, a força sertaneja do maranhense João do Vale (autor de Carcará) e a malícia do suburbano carioca Zé Kéti. O espetáculo, intenso ao limite do passionalismo, continha um recado: o Brasil vítima do golpe de 1964 não iria mudar de opinião.

Boal, a seguir, juntou-se em parceria dramatúrgica com Gianfrancesco Guarnieri e musical com Edu Lobo, o que resultou nos antológicos espetáculos Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes. São textos em que a história nacional é revista do ponto de vista dos oprimidos sem perder a perspectiva otimista narrada pelo Sistema Coringa (um ator/personagem fixo e os demais se revezando em múltiplos papéis). Resultou bonito e eficaz.

Esta resistência teatral com música teve ainda dois outros momentos em Arena Conta Bahia e Tempo de Guerra (com poemas de Brecht). No elenco ou direção musical, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Tom Zé, Gilberto Gil e Gal Costa, em início de vitoriosa carreira, e Carlos Castilho (1933-1985), maestro, arranjador brilhante a ser mais homenageado.

Ao mesmo tempo em que se firmava como dramaturgo, Boal não deixou de lado o melhor repertorio internacional: Gogol (O Inspetor Geral). Brecht (Arturo Ui). De repente, a prisão e o exílio, a começar pela Argentina. Difícil desenraizamento que iria traduzir na peça Murro em Ponta de Faca.

Salto no tempo. Reencontro com Augusto Boal na Europa (1976/77), nós dois professores no Conservatório Nacional de Lisboa, e ele a encenar aos ex-colonizadores a mesma história de Tiradentes, o mártir da independência. Sucesso do grupo A Barraca. Depois, 26, Rue de Rungis, seu endereço em Paris, a divulgação mundial do Teatro do Oprimido. Finalmente, a volta ao Rio de Janeiro do filho de portugueses de sobrenome Boal, um bom vinho da ilha da Madeira.

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