Um herói inexistente reúne ases das HQs

As Incríveis Aventuras do Escapista traz o último trabalho de Will Eisner, em meio a uma galeria de festejados autores de comics, como Howard Chaykin e Brian K. Vaughan, que recriam o personagem de Michael Chabon

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

Duas semanas e meia antes de morrer, em 3 de janeiro de 2005, o desenhista Will Eisner entregou nas mãos da editora Diana Schutz seis páginas com sua derradeira história do Spirit, feita sob encomenda. Tratava-se de um encontro entre o Spirit e um herói misterioso, O Escapista, Mestre do Subterfúgio, vigilante que na verdade nunca existiu.

Essas seis páginas finais de Eisner passaram a integrar um extraordinário álbum em quadrinhos lançado esta semana no Brasil pela editora Devir Livraria: Michael Chabon Apresenta As Incríveis Aventuras do Escapista. Trata-se de uma série imaginada pela editora americana Dark Horse em 2007. O pressuposto: convidar um dream team de quadrinhistas e roteiristas de quadrinhos para criar aventuras para O Escapista, um personagem incidental do escritor americano Michael Chabon no livro As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay, ganhador do Prêmio Pulitzer em 2001.

Fã de gibis, Chabon realizou em seu romance o sonho de legiões de admiradores de quadrinhos: criou um personagem sob medida para a Era de Ouro dos comics, situada entre os anos 1940 e 1950. O Escapista é descrito por ele como "o maior super-herói esquecido da Era de Ouro", uma espécie de "Pé Grande do mundo dos quadrinhos"; sua saga teria sido uma espécie de achado arqueológico que ele empreendeu entre as caixas de gibis antigos do seu primo Artur.

Tudo isso é mitologia inventada por Chabon para ser incorporada ao universo romanesco do livro que ganhou o Pulitzer, no qual os heróis são dois jovens primos judeus, Joe Kavalier e Sam Clayman. Kavalier e Clay tentam se firmar no admirável mundo novo das histórias em quadrinhos dos Estados Unidos na década de 1930. São, a seu modo, alter egos de personagens reais, como Jerry Siegel e Joe Schuster, os autores do Super-Homem, e Bob Kane, o autor de Batman.

A dupla fictícia cria um personagem, O Escapista, identidade sob a qual se abriga o deficiente físico Tom Mayflower. "Encaixado" na cronologia que lhe for mais conveniente no período, o herói é livre para citar e ocupar vácuos da Era de Ouro dos comics (em uma de suas capas, aparece durante a 2.ª Guerra Mundial dando um cruzado de direita no vilão Adolf Hitler).

Chabon chacoalhou a cultura pop. Encarou aspectos escamoteados desse universo, entre eles, a presença gay no meio de autores e personagens: Sam Clay enfrenta o desafio de assumir sua opção sexual. "A vida, minha vida, tem sido rica de "personagens" gays. Como esperar que qualquer ficção que deseja ser encarada como plausível negligencie tal realidade?", disse Chabon.

As Incríveis Aventuras do Escapista, o gibi derivado do romance, não se saiu tão bem em sua temporada nas livrarias de comics americanas: lançado em episódios, durou somente oito edições. Depois dessa marca, a Dark Horse decidiu cancelar o título, mas sem abrir mão dele totalmente. Em 2006, publicou nova história com o badalado Brian K. Vaughan como convidado. Na edição da Devir, são 15 autores ao todo; além de Vaughan, estão no livro, entre outros, Harvey Pekar (de American Splendor), Howard Chaykin (de American Flagg), Kevin McCarthy (Tomb Raider e Alien 8), Roger Petersen (Monstro do Pântano), Steve Lieber (autor da história original de Estrada para Perdição), e os escritores Chris Offutt, autor do romance The Good Brother; Glen David Gold, de Carter Beats the Devil.

Como todos os personagens farsescos, O Escapista (cuja especialidade, como um David Copperfield de máscara, é escapar de qualquer prisão, cadeado, cordas ou grilhões) vai fazendo seu tour revisionista no álbum. Howard Chaykin (que esteve no Brasil no fim dos anos 80, para uma palestra na Escola Panamericana de Arte) coloca o herói no encalço das obras de "arte degenerada" desaparecidas na Alemanha nazista.

Como no filme Bastardos Inglórios, de Tarantino, os heróis de Chabon puderam fazer sua versão da História, o que inclui sarcástica autocrítica. "Em anos posteriores, em outras mãos, O Escapista atuava por diversão. As preferências tinham mudado, os escritores estavam entediados e todos os roteiros lógicos tinham se esgotado. (...) Transformaram a série num tipo peculiar de paródia invertida de todo o gênero de heróis fantasiados. Seu queixo ficou maior e mais enfaticamente encrespado, e seus músculos hipertrofiaram até ele ficar inchado", escreve Malachi Cohen na apresentação da obra.

Chabon conta que, quando começou a pesquisar para fazer As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay, foi se encontrar com Will Eisner e perguntou a ele por que todos os grandes desenhistas dos anos 30 e 40 eram judeus. Eisner respondeu que, naquela época, para um jovem judeu, essa era a única chance de postular trabalho nas artes gráficas. Todas as outras portas estavam fechadas.

No fim do livro, Chabon definiu seu romance como "uma combinação entre imaginação selvagem, parceria entre homens, arte popular e fracasso comercial com ressonância". Antes, no prefácio, fez questão de ressaltar aquela que foi sua pedra de toque: "Finalmente, quero deixar registrado aqui o profundo débito que tenho nesta obra e em tudo o mais ao trabalho do falecido Jack Kirby, o Rei dos Quadrinhos." Kirby foi um dos criadores do Capitão América (ao lado de Joe Simon). O Escapista é um herói à altura do modelo.

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