Um herói fiel a seu código de valores

Khadji-Murát, do russo Liev Tolstói, mantém-se atual, na forma e na trama, ao traçar perfil de guerreiro tchetcheno

Aurora Bernardini, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2010 | 00h00

Este breve romance, Khadji-Murát, na tradução de Boris Schnaiderman revista para esta edição da Cosac Naify (a anterior, com o mesmo título, foi da Cultrix em 1986), é um presente de Liev Tolstói para a literatura mundial. Durante décadas, ele carregou os manuscritos inacabados em suas viagens - são 2.166 páginas de rascunhos! - e só conseguiu pôr um ponto final no livro em 1905, cinco anos antes de morrer, quando contava 82. A obra, aliás, só foi publicada postumamente. Se, do ponto de vista estilístico, Khadji-Murát insere-se entre as obras máximas do autor - que, depois de refazer várias vezes um trecho, chegou a dizer algo como "escreveu bem, o velho!", frase relatada por Máximo Górki, conforme atesta o prefácio da edição - , no âmbito da trama, cuja ação se passa na Tchetchênia, ele se revela de extrema atualidade.

Pregador da não violência, crítico das atrocidades da realeza russa e das crueldades dos senhores de terra, Tolstói, entretanto, cria nessa obra, conforme nota Boris Schnaiderman, "um tipo másculo, que se impunha pelo seu vigor" -- o que, em alguma medida, embasa uma de suas máximas, também lembrada por Górki: "Os chamados grandes homens são sempre tremendamente contraditórios."

Khadji-Murát é um herói da Tchetchênia, guerreando com os "porcos russos" (que só a anexariam ao Império em 1859, depois de décadas de hostilidades), rigorosamente fiel ao código de valores e de comportamento que sua religião, sua tradição e seu estado lhe impõem. No apogeu de sua vida, entretanto, ele se rendeu voluntariamente ao governo russo - em luta contra os montanheses da vasta cordilheira situada entre o Mar Negro e o Mar Cáspio -, esperando ser nomeado governador da Tchetchênia, graças aos serviços que prestaria ao czar Nicolai I.

O motivo dessa "traição" é o projeto de vingança de Murát contra Chamil, guerreiro agora chefe dos tchetchenos, que, por motivos político-religiosos, mantinha a família do herói aprisionada. As sequências e as consequências desse projeto são descritas no romance, conforme viu o prefaciador, de forma surpreendentemente cinematográfica. Provavelmente obedecendo ao princípio da "contaminação", tão caro a Tolstói (veja-se seu livro de 1898, O Que É a Arte): a concisão das tomadas em zoom numa "cena" mais longa corresponde à maneira de ser dos próprios montanheses, que apreciam atuar "com a corda longa e a conversa curta".

Com a mesma essencialidade são descritas as sequências ambientadas no campo (local em que ficaram trabalhando as famílias dos soldados); na corte russa (onde Nicolai, em sua poltrona, "de sobretudo preto, com galões pequenos em lugar de dragonas, e com o busto volumoso, amarrado sobre a barriga túmida, dirigia aos recém-chegados o seu olhar imóvel e sem vida") e nos acampamentos ("ele passou por um cadáver virado de costas, e somente com um olho viu a posição algo estranha da mão que parecia de cera e a mancha vermelho-escura na cabeça").

Em particular, às mulheres, nesse mundo inclemente, é reservado o papel humanitário. Desde a bela e aristocrática Maria Vassílievna - a esposa do comandante, capaz de dizer a frase salvadora no momento de maior constrangimento - até a simples Maria Dmitrievna (Machurka), a mulher do major, a quem, após a cena mais horripilante dos acontecimentos, cabe concluir cabalmente: "Guerra? Qual guerra? São uns assassinos, e é tudo."

Aurora Bernardini é professora de pós-graduação em literatura russa da Universidade de São Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.