UM HERÓI FÁCIL DE AMAR

Charme de Bruce Willis garante a sobrevivência de Duro de Matar, agora no 5º filme

ADAM STERNBERGH , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2013 | 02h08

Com o lançamento de Duro de Matar - Um Bom Dia para Morrer, o quinto filme da série Duro de Matar, a extensão da vida cinematográfica de John McClane foi esticada para 10 horas - mais longa do que a de ícones pop peso pesado como Ellen Ripley, Indiana Jones e John Rambo (quatro filmes cada um) e Michael Corleone (três filmes e nove horas).

Somando-se o fato de que McClane apareceu na tela em quatro décadas diferentes, ele é possivelmente o personagem do cinema americano contemporâneo mais longevo não chamado Batman ou Rocky Balboa.

Graças às muitas vezes que vi cada filme Duro de Matar, eu pessoalmente passei mais de 10 horas em companhia de John McClane. Fico constrangido de admitir ter ficado mais tempo analisando John McClane do que, por exemplo, Hamlet.

Rocky eu entendo perfeitamente. É o injustiçado. Batman? É o vigilante obcecado. Mas quem é exatamente John McClane? Com suas tiradas sarcásticas, sua testa ensanguentada e suas camisetas sem manga, o que é que ele defende? Do que ele é ícone? Diferentemente de Rocky ou Batman (ou Hamlet), McClane é difícil de classificar. Quem é esse homem com o qual passei 25 anos - que conheci quando adolescente e ainda convivo nos meus 40?

Afora o primeiro, eu nem mesmo gosto especialmente dos filmes Duro de Matar. O segundo não é tão bom. O terceiro é muito bom. O quarto é ligeiramente melhor. O quinto acaba de sair e vamos dizer apenas que é menos coerente.

É difícil avaliar a série como um todo, porque, pela lógica, nenhumas dessas continuações deveria existir. Na série Rocky, cada continuação faz sentido em termos narrativos: ele é um lutador e decorre daí que podem haver mais lutas. Mas a premissa do Duro de Matar original impede continuações. Isso faz parte da genialidade do cinema.

A série subverte completamente a narrativa padrão dos filmes de ação, em que algum especialista de primeira linha (o pistoleiro; o arrombador de cofres; o ex-Boina Verde) é tirado do seu retiro para enfrentar uma última missão, para executar um último inimigo difícil de matar. A premissa de Duro de Matar é que um policial comum de NY fica preso inesperadamente num prédio cheio de malfeitores. A ideia de que esse mesmo sujeito se veja de novo na mesma situação é um abuso da credulidade.

Evidentemente, em Hollywood, a credulidade está a serviço da lucratividade, e isso nos deu o episódio 2. Nesse filme, McClane é surpreendido num aeroporto que foi tomado por soldados americanos malignos e ele constantemente se pergunta em voz alta como a mesma coisa poderia ter acontecido duas vezes ao mesmo cara, o que faz eco às reservas do público.

Para o terceiro, quarto e quinto filmes, os produtores sabiamente abandonaram o Duro de Matar surpreendido numa situação espinhosa.

Há muito que já se disse que a sedução de McClane repousa no fato de que ele é um cara comum - como nós -, embora isso não o explique tampouco. Boa parte do seu atrativo é que ele simplesmente se parece com Bruce Willis. "O personagem foi construído a partir de Bruce", diz John McTiernan, diretor do primeiro e do terceiro episódio. Os prazeres que restarem na exaurida franquia são todos resultado do charme de Willis.

Encrencado, acuado, atacado, frustrado: posto dessa maneira, é de espantar que o personagem de McClane tenha sobrevivido? Que ele tenha ofuscado o brilho de todos aqueles santos movidos a músculos caricaturais dos anos 1980? Na verdade, ele se tornou nosso herói não porque é poderoso, mas porque é impotente e mesmo assim consegue prevalecer. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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