Um herói combate a miséria estética

O pintor Rubem Ludolf luta há mais de meio século para colorir o Brasil

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

Rubem Ludolf é o que chamam de artista "low profile", isto é, um sujeito introspectivo e avesso a badalações. Também por isso ficou anos produzindo sem se preocupar com a posição de sua obra no mercado - cada vez mais disputada por colecionadores. Tanto que calcula ter reunido nos últimos 50 anos mais de quatro centenas de estudos à espera de sua versão final na tela. Um susto depois da abertura de sua primeira exposição organizada pelo Gabinete de Arte Raquel Arnaud, em São Paulo, no dia 9, deixou-o, no entanto, preocupado com essa missão ainda por cumprir. Com pneumonia, foi internado numa clínica carioca. Venceu, contudo, sua vontade de pintar. Mesmo numa cama de hospital, ele falou com entusiasmo ao Estado sobre sua individual, em cartaz até 24 de julho.

"Tive um aneurisma da aorta há três anos e fui obrigado a abandonar as tintas por recomendação médica", conta Ludolf, justificando a razão de datar de 2007 sua tela mais recente na mostra. Este ano, a paleta do artista foi reduzida ao preto e branco e ele se resignou a produzir guaches sobre papel com formas geométricas, embora tivesse preferido explorar novas combinações cromáticas - Ludolf sempre compra bisnagas de cores vivas na esperança de usá-las no futuro. Esboçar figuras geométricas e posteriormente aplicar cores nesses estudos é, aliás, um hábito que conserva desde que integrou o histórico Grupo Frente, criado por seu professor Ivan Serpa em 1954. Ao lado de outros pioneiros da abstração como Aluísio Carvão, Décio Vieira e Lygia Clark, Ludolf frequentou as mesmas aulas de Serpa no Museu de Arte Moderna do Rio.

"Acho que esse hábito de usar papel milimetrado e construir cada composição com rigor vem de minha formação de arquiteto, de pensar o desenho antes da cor, de ordenar o mundo com formas geométricas", analisa o pintor, para logo em seguida refletir sobre a vocação construtiva da arte brasileira. Seria ela uma imposição crítica, fruto de um desejo inconsciente de confrontar a geleia formal brasileira? "Naquela época - e estamos falando de 1956, quando montamos a primeira exposição de arte concreta em São Paulo-, o que predominava era a pintura figurativa de Portinari", lembra, observando que as reações do público e da crítica não foram lá muito favoráveis aos abstracionistas - informais ou não. "Muitos confundiam pintura geométrica com decoração."

Pragmático, Rudolf foi tratar da vida e não se curvou ao gosto do mercado. Passou 46 anos trabalhando como arquiteto no DNER e foi praticamente obrigado a aprender paisagismo para atender às exigências do departamento, empenhado em criar oásis nas rodovias brasileiras, de Altamira aos pampas. "Comprei alguns livros de Burle Marx e esse foi todo meu aprendizado na área."

Cinco vezes presente na Bienal de São Paulo, Ludolf acumulou alguns prêmios e foi homenageado com retrospectivas (Museu Nacional de Belas Artes em 2002 e, no ano seguinte, no Centro Universitário Maria Antonia). Modesto, ele diz que esta sua exposição no Gabinete de Arte é a concretização de um antigo sonho, o de expor na galeria de Raquel Arnaud, nome que está para o construtivismo brasileiro como a veterana francesa Denise René esteve para a difusão da arte cinética nos anos 1950. "Mesmo reconhecendo seu papel, os artistas brasileiros já faziam op art quando Denise René revelou para a França a obra de Soto e Cruz-Diez." Agora, colhendo os frutos de uma carreira construída sem muito barulho, Rubem Ludolf anuncia com orgulho o breve lançamento do primeiro livro sobre sua obra, com textos do crítico Luiz Camilo Osório.

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