Um herói cheio de vícios e baixezas

O Sequestro de Um Herói, do belga Lucas Belvaux, poderia ser apresentado de maneira simplória como um excelente filme de gênero policial. Mas isso não lhe faria jus. Belvaux vai muito além do que se espera desse gênero. Além disso, quebra clichês acumulados por várias camadas geológicas de incursões do cinema norte-americano nesse terreno.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2011 | 00h00

Quem o lança no Brasil prefere esse título prolixo ao invés da sintética denominação original, mais fiel ao estilo seco da obra - Rapt. Rapto, sequestro, que é o que acontece com o ricaço Stanislas Graff (Yvan Attal), personagem com o qual o público dificilmente poderá se identificar. Stanislas é egocêntrico e mau-caráter. Mas se tornará alvo de uma ação violenta por parte de um grupo bastante profissional e disposto a tudo. Tanto assim que seus sequestradores não hesitarão em fornecer à família e sócios do sequestrado uma macabra prova de vida - para mostrar que a vítima está mesmo em seu poder e, adicionalmente, para demonstrar que não estão para brincadeiras.

Belvaux já teve exibida por aqui a sua trilogia composta dos filmes Em Fuga, Um Casal Admirável e Acordo Quebrado. Quem os viu, lembra do seu método de trabalho. Filmagem tensa, dura, indo além do tratamento associado a esse gênero em seu formato mais convencional. São filmes para público mais amplo e não para guetos de cinéfilos. Mas esse público é tratado de maneira adulta. Ou seja, Belvaux supõe uma plateia que pode ser exposta a alguns aspectos mais duros da vida sem precisar de terapia de apoio após a sessão.

Um desses aspectos é que, em certos casos desta nossa vida incerta, não existem heróis unidimensionais. Pelo menos, fica muito difícil considerar Stanislas um deles, a não ser que seja como um herói de si mesmo. Autoritário, manipulador, cheio de vícios e baixezas, no entanto, desperta simpatia quando luta pela vida. E essa luta se dá contra um sequestrador, o chefe, de aparência tão suave e civilizada enquanto, no fundo, mostra-se implacável.

O melhor virá no pós-sequestro, quando Belvaux desfaz aquelas ilusões simplórias sobre "a experiência que torna as pessoas melhores, etc.". Essa melhoria moral trazida pelo contato com a adversidade pode acontecer de fato, mas não é inevitável. Podemos muito bem piorar com experiências terminais, por que não? Será interessante observar em que direção a história de Stanislas se encaminhará.

Sem ser obra-prima, O Sequestro de Um Herói nos proporciona aquela sensação de agradecimento que devemos ao cinema comercial nas raras vezes em que consegue nos surpreender.

O SEQUESTRO DE UM HERÓI

Nome original: Rapt Direção: Lucas Belvaux

Gênero: Drama (Bélgica-França/ 2009, 125 min.)

Censura: 14 anos

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