Um herege no mundo da fábula exemplar

Salman Rushdie recorre a videogame e Calvino para fisgar o leitor jovem

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2010 | 00h00

Com lançamento mundial na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), dia 6, Luka e o Fogo da Vida, do escritor indiano Salman Rushdie, tem algo de Harry Potter - e todos os ingredientes para conquistar seus leitores. Em entrevista por telefone, de Londres, Rushdie revela, inclusive, que já trabalha numa adaptação desse seu novo livro para o cinema, assistido pelo cineasta inglês Alan Parker (Evita). Inicialmente, pensou em Terry Gilliam para dirigir Haroun e o Mar de Histórias, mas ele estava envolvido com outros projetos. Publicado em 1990, Haroun é o livro do qual saíram os protagonistas de Luka, outra fábula no melhor estilo de Italo Calvino.

Luka e o Fogo da Vida narra a história de um garoto de 12 anos, filho de um contador de histórias, Rashid Khalifa. Certo dia, por amaldiçoar um circo que maltrata animais, provocando involuntariamente um incêndio, Luka vê seu pai enfeitiçado pelo perverso treinador que usa o chicote contra os indefesos bichos do circo. Recolhido a um sono profundo que pode levar Rashid à morte, ele só será resgatado se o filho roubar o fogo da vida na Montanha do Conhecimento. Parece um videogame. E é quase um. Rushdie dedica o livro ao filho Milan, que tem quase a mesma idade de Luka.

Se você pensou numa parábola sobre o irracionalismo do mundo contemporâneo, em busca de um novo Prometeu que lhe devolva a luz, pensou certo. Rushdie anda desencantado. Há 20 anos seu pescoço está por um fio por causa de fanáticos que insistem em ler seu Versos Satânicos como uma obra blasfema contra o Islã. Ele ainda corre riscos, a despeito do acordo firmado entre Irã e Inglaterra para suspender a fatwa - condenação à morte - contra Rushdie, acusado de apostasia em 1988 por causa do livro.

Ameaças. Rushdie, que todo dia 14 de fevereiro recebe uma carta de radicais, avisando que o país não esqueceu a fatwa decretada pelo aiatolá Khomeini (1900- 1989), não parece tão paranoico como há duas décadas, embora não ignore a advertência. Tem, inclusive, um livro pronto para ser publicado sobre essa experiência de viver perseguido.

Ele alega que o escreveu para contestar a história "falsa" que seu guarda-costas Ron Evans tentou publicar e foi interditada judicialmente há dois anos pela Corte Suprema de Londres. Evans teria argumentado em seu livro proibido que Rushdie tem instinto suicida e tirou dividendos financeiros da ameaça de morte. O livro em que o escritor finalmente pretende revelar tudo o que passou nas últimas duas décadas - primeiro se escondendo dos fundamentalistas e depois se retratando publicamente pelo conteúdo de Versos Satânicos - está pronto e nas mãos de seu editor.

Rushdie diz que não abjurou Versos Satânicos. Se, em 1990, pressionado pela ameaça de radicais muçulmanos, assinou um documento em que repudiou as ofensas ao Islã e assumiu o compromisso de trabalhar para o entendimento da religião no mundo ocidental, hoje diz que estava apenas defendendo sua vida. Não mudaria uma linha de seu polêmico livro, que, segundo ele, deve ser lido como obra literária, não como um libelo antirreligioso.

Os fundamentalistas, segundo Rushdie, estavam tão empenhados em incentivar a destruição pública de Versos Satânicos que nem sabiam do que se tratava a obra - sobre muçulmanos indianos que sobrevivem a um atentado. Nele, a passagem mais polêmica menciona uma possível adição ao conteúdo do Corão sugerida satanicamente aos ouvidos do profeta. O livro chegou a ser queimado nas praças. Seus editores e tradutores foram ameaçados de morte e livrarias chegaram a ser bombardeadas por manifestantes radicais.

O escritor, que não é bobo, deixou de mexer com religião e, hoje, só fala por metáforas - à maneira do português José Saramago (1922-2010). Ou melhor, do cubano de origem italiana Italo Calvino (1923-1985), modelo confesso tanto de Haroun e o Mar de Histórias (1990) como de Luka e o Fogo da Vida, que vem lançar na Flip.

Ele já esteve na festa há cinco anos. Sua mesa, nesta oitava edição, foi uma das primeiras a ter lotação esgotada. Rushdie diz que fica orgulhoso de lançar seu livro no Brasil, antes mesmo de este alcançar o mundo em novembro. Brinco, lembrando que ele escreveu há alguns anos um ensaio sobre o filme Brazil, de Terry Gilliam, não sendo mais condescendente que essa sua alegoria política sobre uma ditadura retrofuturista, em que um burocrata vira inimigo do Estado. Sua visão sobre o País teria mudado desde então? "Ah, era só um ensaio sobre o filme de Gilliam, dizendo que o Brasil do filme não era exatamente o país da América do Sul que conhecemos."

Fábula. Esperando que seja verdade, volto ao assunto Calvino. Por que usar uma sintaxe fabular para falar de questões contemporâneas como a ameaça de ditadores e o triunfo da perversidade num mundo em que mulheres são mortas a pedradas? "Calvino descobriu uma fórmula de atingir o leitor usando uma linguagem de conto de fadas", argumenta Rushdie, admitindo que seu apego à fantasia passa pelo desejo de conquistar os leitores jovens. "A história de Luka pode ter um apelo didático, pois aborda aspectos da realidade por meio de uma soma de mitologias arcaicas que certamente vai interessar a leitores não-familiarizados com essa literatura."

Para o escritor indiano, assim como para Calvino, recontar uma história é reinventá-la num contexto diferente da qual se originou, renovando sua mensagem poética. Também em política é preciso reconhecer no passado traços incômodos que podem ser superados com liberdade criativa. A modernização da cultura passa necessariamente pela despolitização do Islã, argumenta Rushdie. "Cresci em Bombaim e posso dizer que os muçulmanos indianos são muito diferentes dos árabes, talvez pelo fato de a nossa ser uma cultura visual, cinematográfica", analisa Rushdie. O cinema foi sua porta de entrada para a literatura. Teria sido ator se não tivesse se tornado escritor famoso - e ele chegou a fazer pontas em filmes, entre eles O Diário de Bridget Jones.

Cinema. Talvez por não ser bonito como Colin Firth, Rushdie preferiu ficar por trás das câmeras depois disso. Ele acaba de entregar o roteiro de Os Filhos da Meia-Noite (Midnight"s Children, 1981), primeiro livro seu a alcançar sucesso. As filmagens começam em setembro pela diretora indiana Deepa Mehta, realizadora da trilogia Fire (1996), Earth (1998) e Water (2008), este último uma obra polêmica e anticolonialista censurada na Índia. Nada indica que o novo filme não cause controvérsia semelhante: Os Filhos da Meia-Noite tem como protagonista um muçulmano telepata trocado na maternidade por outro recém-nascido, justo no momento em que a Índia se tornou independente, em 1947, ano em que Rushdie nasceu.

Os livros podem, afinal, mudar a história de um país? Rushdie, que jura não ser nacionalista, acha que sim. Lembra, a propósito, o papel que teve uma obra clássica como A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, no processo abolicionista americano - importância reconhecida pelo próprio Lincoln. "Não digo por causa da guerra civil, mas pelas mudanças introduzidas na mentalidade americana por esse livro, que a literatura tem um poder extraordinário." Talvez maior que o da religião? "Bem, meu problema não é com os religiosos, mas com fanáticos que a usam para justificar seus crimes."

Rushdie se diz solidário com a causa do inglês Christopher Hitchens, ateu convicto e autor do discutido Deus Não É Grande (2007). Os dois já cansaram de discutir os danos causados pela tiranias do Estado e pela religião desde que se conheceram, nos anos 1980, em Notting Hill, em Londres, a caminho de um debate sobre a primeira mulher a ocupar um cargo político num país muçulmano, a ex-premiê do Paquistão Benazir Bhutto, que seria morta num atentado em 2007. Quando Rushdie foi ameaçado pela fatwa de Khomeini, em 1989, ele foi o primeiro a esconder o escritor em seu apartamento em Washington. "Hitchens não é um radical, mas homem generoso e coerente que expressa de forma brilhante o repúdio ao uso da religião com objetivos políticos", define.

Sobre os escritores ingleses contemporâneos, Rushdie destaca Ian McEwan como um dos seus favoritos, lamentando não acompanhar de perto a produção da geração mais nova de autores. "Creio, porém, que há um movimento notável de novos nomes na Inglaterra, a começar por Zadie Smith."

QUEM É SALMAN RUSHDIE

ESCRITOR

Nascido em Bombaim, na Índia, em 1947, e formado em história pela Universidade de Cambridge, ele fez sua estreia na literatura em 1975 com Grimus. Seu livro mais conhecido é Versos Satânicos (1988), que lhe custou uma sentença de morte de Khomeini. Ele é também autor de Os Filhos da Meia-Noite.

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