Um herdeiro de Guignard e Picasso

A exemplo do brasileiro, desprezava teorias e, como o gênio espanhol, esforçou-se para liberar o gesto e a forma

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

Evocado com certa frequência, o parentesco de Iberê Camargo com artistas abstratos e informais exige cautela, como observa a estudiosa de sua obra Vera Beatriz Siqueira. Se, em 1966, quando pintava o painel da Organização Mundial da Saúde em Genebra, essa pintura poderia aproximá-lo do expressionista abstrato Pollock (embora o brasileiro nunca tenha pintado no chão ou mostrado afeição pela técnica do dripping), o mais próximo que chegou da turma americana de Jackson Pollock foi Willem De Kooning, holandês cujo trabalho sempre oscilou entre a figuração e a abstração.

A professora vê Iberê como herdeiro direto de Picasso por seu esforço pela liberação do gesto e da forma, ligando-o à tradição europeia, seja pela abstração expressiva do grupo CoBrA ou de Jean Dubuffet. Seu vínculo com essa tradição e a técnica, segundo Vera Beatriz, seriam "formas dramáticas de resistir ao desmantelamento da pintura", valorizando o gesto criativo do pintor como manifestação histórica e não casual. Já em suas paisagens turbulentas dos anos 1940 nota-se a valorização desse gesto, vinculado a Cézanne. Nelas, a natureza é sufocada por uma camada espessa de tinta, como para afirmar não só a fatura como a presença do autor - ou do descobridor, como teria preferido Iberê, que comparava o artista a um Cabral diante de desvios imprevistos.

Ele, antes de iniciar a viagem, consultava sua bússola interior e traçava o rumo, mas, no mar aberto, os ventos o desviavam da rota. Por 25 anos Iberê adiou a viagem e, em 1940, finalmente começou a pintar para valer, elegendo tipos da rua e empregadas domésticas que serviram de modelo no ateliê.

A sua era, então, uma visão fenomenológica. Queria fixar o instante fugidio, como relata em Gaveta dos Guardados. Trabalhava às pressas, com paixão, mas o provincianismo de Porto Alegre, na época, não comportava seu gênio. Nem o modernismo que viria a descobrir no Rio, para onde se mudou em 1942 e conheceu o paulista Candido Portinari e o fluminense Alberto Guignard. Das pinturas do primeiro não gostou, mas o segundo viria a se tornar seu primeiro grande mestre, retratado no desenho ao lado, feito por Iberê em 1948. Dele, o artista gaúcho escreve com carinho no livro autobiográfico: "A obra de Guignard tem a pureza e a percepção da criança." E conclui: "Ele é um moderno descendente dos primitivos italianos, de quem herdou o amor ao grafismo e ao modelado suave."

A exemplo do mestre, Iberê desprezava teorias, mas era reverente à tradição. Tanto que algumas pinturas dos anos 1940 trocam a grossa camada de tinta por contornos finos, que depois seriam abandonados ao viajar para a Europa, em 1948, e tornar-se aluno de De Chirico, para quem a matéria era a "prima forma". Não se pode falar de uma influência direta de De Chirico. Tampouco de André Lhote, que foi excelente professor, mas não grande pintor, embora a ordenação geométrica das naturezas-mortas dos anos 1950 (as garrafas de 1957) deva algo ao cubista. É mais certo associá-lo a Morandi.

Os carretéis, que surgem em 1958, ainda morandianos, constituem o marco zero de sua transformação de discípulo em mestre - quando a paleta do pintor é tomada por pretos e cinzas que não cedem ao informalismo, mas carregam alguns traços de sua poética. Incluindo o drama existencialista que a marca.

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